| *Entrevista dada a Mozarly Almeida, jornalista do
Diário do Nordeste de Fortaleza.
<reportagem2@diariodonordeste.com.br>
— O que o senhor sentiu ao saber que o cardeal alemão
Joseph Ratzinger havia sido escolhido para suceder o papa João
Paulo II?
R/Senti perplexidade e decepção. Esperava uma mudança
de figura para dar esperança à Igreja depois de mais de
vinte anos de linha conservadora e controladora.
— Muitos crêem que o papa Bento XVI apenas dará
continuidade ao trabalho do antecessor. O sr. concorda? Ou apesar da sintonia
entre os dois, podemos esperar mudanças e quais?
R/ Não creio que faça mudanças. O nome é
diferente mas a politica será a continuidade de uma forma, julgo
eu, mais radicalizada ainda. Os cardeais escolheram o caminho mais fácil
o de prolongar o mesmo ao invés de escutar o clamor que vinha de
todos os lados pedindo mudanças e até um novo concílio
para adequar a Igreja à nova fase da humanidade, a fase plaanetária
e o crescimento da pobreza e injustiça mundial. Mas não
ouviram nada disso, apenas a eles mesmos.
— Em algum momento, desse processo sucessório na
Igreja, o sr. acreditou na escolha de um sul-americano ou, mais precisamente,
na escolha de um brasileiro?
R/ Via a possibilidade que um cardeal latino-americano pudesse
ser eleito Papa. Aqui vivem 640 milhões de católicos, isto
é mais da metade de todos os católicos. Isso teria dado
alento à Igreja universal que se ocuparia dos problemas do Terceiro
Mundo assolado pela miséria e pela devastação que
a AIDS está fazendo na Africa. Temo que com Bento XVI os temas
serão europeus, ligados a um cristianismo moribundo em paises cuja
populações estão diminuindo a cada ano. Lá
não há vitalidade. Vida e creatividade existem na Africa,
Asia e America Latina, porque aqui estão os grandes desafios que
provocam a Igreja a se renovar e encontrar mensagens libertadoras.
— O cardeal arcebispo emérito de Aparecida, dom
Aloísio Lorscheider, declarou na imprensa que o pontificado de
João Paulo II foi uma benção para a Igreja sobretudo
por causa do diálogo inter-religioso que propiciou. Porém,
observou a retirada de poder das conferências episcopais e a centralização
de todas as decisões na Cúria Romana. Nesse sentido, o que
podemos esperar do novo papa?
R/ O novo Papa irá continuar o que João Paulo II
tanto incentivou. Emboras tivesse uma teologia conservadora até
medieval com referência à importância da Igreja para
a salvação, era aberto ao diálogo e ao encontro com
os lideres religisosos. Sem a paz religiosa não haverá paz
politica. São as religiões que mantem viva a religiosidade
que dá origem a valores eticos importantes para a convivência
humana como a solidariedade, o amor, o perdão, a tolerância
e o cuidado para com a criação.
— A escolha do cardeal alemão, um religioso profundamente
identificado com a linha mais conservadora da Igreja, contribuirá
para frear a diminuição de fiéis e conter o crescimento
das religiões pentecostais ou aumentará, ainda mais, o fosso
entre o Catolicismo e as necessidades prementes do mundo atual?
R/ As pessoas emigram da Igreja porque não a sentem mais
como lar espiritual por causa da rigidez das doutrinas, a falta de criatividade
das celebrações e o descompromisso com as questões
que movem as sociedade como as questões da justiça, da violência,
da paz, da salvaguarda da natureza. Uma Igreja que se fecha sobre si mesma
se aliena do mundo. A Igreja não existe para si mas para o mundo,
alimentando a dimensão espiritual e ética da humanidade.
— Quais os principais desafios na sociedade pós-moderna
para a Igreja e para o Catolicismo?
R/ O desfio continua sendo a desigualdade crescente entre ricos
e pobres a nivel mundial, a injustiça nas relações
internacinais, a guerra que assola nações, a globalização
que é apenas competitiva e nada cooperativa e o abandono da Africa
entregue à sua sorte e dizimada pela AIDS.
Os temas que o Papa elencou no seu discurso aos Cardeais antes de entrarem
em Conclave são europeus, tem pouco a ver com a realidade da miséria
de nossas populações. A ditadura do relativismo é
problema de algumas sociedades avançadas mas de jeito nenhum problemas
da maioria das culturas que se orientam por suas religiões. O que
a Igreja deve fazer não é condenar e fechar-se ao diálogo
mas ver que atras daqueles movimentos há pessoas que estão
buscando. Se há alguma luz ela deve ser acolhida e se houver algo
positivo deve ser resgatado. A partir dessa positividade deve-se fazer
o diálogo, como sempre foi na verdadeira evangelização
que não é pura transmissão de doutrinas.
— O ser tem sofrido um processo semelhante ao da Inquisição
da Idade Média, faltando, creio, apenas a fogueira. Inclusive relata
ter sido inquirido pela Congregação da Doutrina da Fé,
através do cardeal Joseph Ratzinger. Há mágoa em
relação ao agora sumo pontífice?
R/ Não guardo nenhuma mágoa ou ressentimento por
tudo que passei em consequência do processo que sofri por causa
do livro Igreja: carisma e poder onde aplicava a teologia da libertação
para as relações internas da Igreja. Mas isso não
é nenhuma virtude, pois esse é o meu jeito. Mas tirei a
experiência de que lá dentro da ex-Inquisição
nunca se esquece, tudo se cobra e nada se perdoa. Essa atitude não
me parece refletir o espírito evangélico.
— Logo após o anúncio do nome do escolhido
no conclave, o sr. disse para a imprensa que “seria difícil
amar o novo papa”. Alguns poucos setores da imprensa falaram em
vazamento do teor das discussões no conclave e que teria havido
um acordo entre a ala conservadora e progressista para que o Joseph Ratzinger
assumisse, mas promovesse reformas. O seu coração está
aberto para surpresas positivas? Ou sr. crê mais num afastamento
entre as duas linhas de pensamento predominantes dentro da Igreja e por
que?
R/Eu creio em milagres. Pode ser que Bento XVI volte a ser aquele
teólogo aberto que conheci nos anos 60 do seculo passado na Alemanha
que criticava o centralismo romano e que exigia mais liberdade para os
teologos dialogarem com as tendências culturais do tempo. Depois
que ficou Cardeal se encheu de medo face às transformações
havidas na Igreja e junto com João Paulo II encabeçou um
processo de Restauração. Esse processo levou a suprimir
o pluralismo e a dar hegemonia aos grupos conservadores que frearam a
Igreja em sua renovação.
— Frei Leonardo, como sobrevivem hoje no Brasil a Teologia
da Libertação e as Comunidades Eclesiais de Base?
R/ A teologia da libertação está viva nas
Igreja que tomam a serio a opção pelos pobres e contra a
pobreza. Seu lugar natural é nas pastorais sociais, nas cebs e
nos circulos bíblicos. Ela está forte no Terceiro Mundo
e entre nós. Apenas não tem a visibilidade que tinha anos
atrás quando era polêmica.
— Quais os desafios para teólogos e religiosos
que fizeram a opção preferencial pelos pobres diante da
mão pesada da Cúria Romana?
R/ Os que sentimos a mão pesada de Roma resistimos e continuamos
a trabalhar na linha da libertação porque isso não
é uma moda ou um oportunismo político. Escolhemos o caminho
mais dificil, aquele dos pobres e excluidos Temos certeza que essa teologia
será um dia resgatada como um dos pontos altos da Igreja contemporânea.
Embora perseguida e,em parte condenada, suas intuições básicas
foram assumidas pela Igreja universal como a opção pelos
pobres, a centralidade da justiça, a libertação integral
e o caráter público da fé crista.
— Ante temáticas como ordenação de
mulheres, avanços científicos, o homossexualismo, celibato
e o uso da camisinha para conter a Aids e planejar a concepção
e a linha ortodoxa do novo papa no que se refere aos preceitos religiosos,
que riscos correm os fiéis?
R/ A Igreja tradicionalista e conservadora em moral é
sem piedade e não acompanha os fiéis a não ser incutindo
medo e fazendo condenações. Por isso os cristãos
devem seguir seu próprio caminho inspirados no evangelho. Jesus
não criticou a samaritana pelo fato de ter tido 6 maridos, nem
se associou aos que queriam atirar pedras na adúltera. A missão
da Igreja é anunciar a utopia cristã sobre a dignididade
da vida, formar as consciências e respeitar as decisões que
as pessoas tomam. Ela não pode funcionar como tem fucnionado como
um super ego castrador. A proibição de usar contraceptivos
num mundo onde grassa a aids é simplesmente irresponsável
e na Africca até criminoso. Diz que é especialista em humanidade
mas isso é apenas retórica, pois desrespeita em muitos âmbitos
os direitos humanos como com referência às mulheres, aos
homosexuais e aos divorciados e não mostra ternura para com a vida
ameaçada dos portadores de HIV.
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