| O homem, a mulher assumidos por Deus O ser inteiro mas inacabado busca acabamento e completude. Nesta busca encontra Deus. Deus é o nome para simbolizar aquela terníssima Realidade e aquele Sentido amoroso, capaz de realizar infinitamente o ser humano. Portanto, Deus só tem sentido se irromper da própria estrutura desejante do ser humano. 1. Despatriarcalização do imaginário e da linguagem Tal postulado desencadeia um processo de crise e de purificação dolorosa, embora salutar, em todas as religiões, igrejas e hierarquias. Ou se reconstroem sobre bases transsexistas com larga participação das mulheres e com a assunção decidida do princípio feminino ou se enrijecem em seu tradicionalismo, anti-feminismo e patriarcalismo. Neste esforço representa grande estímulo a descoberta da tradição do matriarcado e das divindades femininas. Foi mérito do feminismo resgatar essa tradição ancestral e fazê-la valer na cultura e no interior da reflexão religiosa e teológica(2). Hoje só fazemos justiça à nossa experiência do Divino se a traduzirmos em termos masculinos e simultaneamente femininos. Deus emerge como Pai e como Mãe ou, numa linguagem inclusiva que supera as juxtaposições, como Pai maternal e como Mãe paternal. Mais radicalmente ainda, muitas feministas falam de Deus e da Deusa. Ou para mostrar a unidade de Deus (que não se divide, como nos seres humanos, em macho e fêmea), escrevem-no da seguinte forma Deus/a. Entretanto, tal formulação só é compreensível na escrita, não, porém, no uso linguístico e litúrgico. Mas ambas as expressões remetem a uma Realidade que ultrapassa as determinações sexuais, próprias da criação (homem/mulher), recolhendo, no entanto, os valores positivos presentes nesta forma de nomear Deus. A “Deusa” ressucita nas mulheres e nos homens que integraram sua dimensão de anima, novas experiências e forças inauditas de regeneração, de enternecimento e de integração. Embora em nome de Deus se tivessem cometido crimes inacreditáveis ao longo da história, vitimando, por séculos, as mulheres, somos da opinião que não se pode renunciar à palavra Deus. Não necessariamente Deus é identificado com o masculino, não pelo menos numa visão teológica que deixa para trás a compreensão usual das palavras. Temos a ver com uma categoria-limite que transcende todos as categorializações. É a palavra mais alta da linguagem humana para significar a Fonte donde tudo procede e o Utero que tudo acolhe. Tal suprema Realidade foi expressa tanto pelo feminino quanto pelo masculino. Melhor seria se lográssemos expressá-lo com as virtudes de ambos os princípios. Quem sabe, escrever e dizer Deus-Ele ou Deus-Ela? Mas, a rigor, isso não melhora a compreensão. Mais avisado seria, manter a palavra Deus, com o rico significado semântico que lhe advém do sânscrito (di) e do grego (theós): a luminosidade que se irradia em nossa vida (o significado de di em sânscrito) ou a solicitude e o enternecimento para com todos os seres, queimando com sua bondade toda malícia qual fogo purificador(o sentido originário de theós em grego)(3). Finalmente, cumpre, na medida do possível em teologia, buscar rigor epistemológico e ter presente que, com referência a Deus, se trata sempre de metáforas, limitadas e redutoras, que jamais colhem o Mistério que circunda e penetra tudo, diante do qual melhor faríamos silenciar que falar. Mas o mais importante foi a tarefa que as mulheres se impuseram a si mesmas: como pensar o Divino, a revelação, a salvação, a graça, o pecado, os símbolos e as festas a partir da experiência das mulheres mesmas e, mais vastamente, a partir do feminino(4). No contexto da teologia da libertação, a questão se coloca desta forma: como pensar Deus e sua graça a partir da mulher pobre, oprimida e excluida? Nesse campo houve contribuições notáveis. Primeiro, as mulheres mostraram quão patriarcal e masculinista é o discurso dito normal e oficial que penetrou seja na socialização infantil e nos discursos oficiais até nas elaborações mais elaboradas da teologia erudita(5). Raramente os teólogos-homens conscientizaram seu lugar social-sexual-patriarcal. A grande maioria estima que a teologia produzida pela comunidade pensante masculina seja a teologia tout court. Ela é parcial. Representa apenas a elaboração que os homens fazem do Sagrado, a partir de sua experiência de homens, bem diversa daquela projetada pelas mulheres. Normalmente a teologia masculina é discursiva, racional, objetivista e sistêmica, em distinção da teologia femina que se apresenta mais narrativa, biográfica, aberta e perpassada de emoção e de experiência espiritual. Em seguida, ao nomear o Divino a partir de sua experiência de mulheres e de mulheres oprimidas, elas puderam revelar dimensões teológicas insuspeitadas, somente possíveis porque elaboradas e ditas por elas mesmas. Com isso o discurso religioso e teológico enriqueceu-se enormemente, propiciando aos professantes da fé uma experiência mais completa e global de Deus e dos mistérios divinos. Uma coisa é dizer Deus-Pai. Nessa palavra ressoam ancestrais arquétipos ligados à ordem, ao poder, à justiça, a um plano divino. A moralidade se estrutura ao redor do bem e do mal, do prêmio e do castigo, do céu e do inferno. Outra coisa é dizer Deus-Mãe. Nessa invocação emergem experiências originárias e desejos arcaicos de aconchego, de útero acolhedor, de misericórdia e de amor incondicional. A moralidade se funda não a partir de um sujeito moral abstrato ou em leis e separações mas em inclusões e na teia de relações que tudo conecta e ordena com cuidado e respeito. Assume-se, pois, os seres humanos existentes em suas relações reais de subordinação, dependência, opressão e que clamam por libertação concreta. A moral, na perspectiva feminista, é um processo de resgate da vida na medida em que todos tem acesso igualitário e legítimo aos meios da vida e às condições que permitem o florescimento das potencialidades humanas. Deus-Mãe reconduz todos os seus filhos e filhas, por mais dispersos que estejam, quais ovelhas ao seu redil. Onde a religião do Pai introduz o inferno, a religião da Mãe faz valer o perdão irrestrito que abre caminho para uma absoluta realização do Reino de todos e para todos. Não sem razão, sentimentos de reconciliação são associados à mãe, enquanto sentimentos de dissociação, ao pai. Isso vale também na experiência com a última e transcendente Realidade. 2.Onde está a questão teológica Evidentemente, tais questões são relevantes para as pessoas e grupos que colocam a questão de Deus. Entretanto, essa questão não é introduzida de fora. Ela emerge da própria radicalidade do pensamento sobre o masculino/feminino. Recordemos o que afirmávamos anteriormente: o feminino/masculino enquanto princípios transcendem qualquer conceptualização e entram na dimensão do mistério. Há, portanto, certa afinidade entre a realidade Deus e a realidade feminino/masculino, embora Deus sempre desborde de qualquer aproximação e analogia. Se o feminino/masculino representam perfeições, então podemos afirmar que eles, em último termo, se ancoram em Deus. Deus tem dimensões masculino/femininas. Se assim é, então o feminino/masculino possui dimensões divinas, perde-se para dentro de Deus. Tais afirmações são coerentes e possuem consistência mesmo quando não definamos seus conteúdos concretos. A teologia planteia ainda uma questão radical: qual é o quadro derradeiro do feminino e do masculino? Qual é a utopia terminal do feminino e do masculino? Na dicção cristã: a que são chamados, no plano último de Deus, o feminino e masculino? Esta questão, no âmbito da teologia, é irrenunciável(7). Embora seu tratamento na teologia convencional e manualística não ganhe muito espaço (talvez num “scholion”), ela deve ser colocada, especialmente, com referência à mulher, tornada invisível em quase todos os aspectos. As respostas variam consoante as religiões e culturas e não é o caso de aqui compendiarmos sequer as linhas dominantes(8). Numa formulação extremamente abstrata e generalista, mas verdadeira, podemos dizer que todas as religiões, por caminhos, os mais diversos, e com representações, as mais diferentes, prometem uma plenitude e uma eternização da existência humana, masculino/feminina, para além desta história que nos toca viver, em comunhão e fusão com a última Realidade. Nossa reflexão, no entanto, se atém ao discurso cristão com o qual estamos mais familiarizados, porquanto aí a questão, na reflexão ecumênica dos homens, mas principalmente das mulheres, foi planteada de forma consciente e explícita. Vejamos antes de mais nada como nas fontes judaico-cristã (os textos do primeiro e do segundo Testamento)emerge a questão do gênero(9). 3. As Escrituras patriarcais falam do feminino Apesar de toda esta concentração maculina e patriarcal, há um texto do Gênesis, verdadeiramente, revolucionário, pois afirma a igualdade dos sexos e sua origem divina. Trata-se do relato sacerdotal (Priesterkodex, escrito por volta do século VI-V a.C.). Ai o autor afirma de forma contundente: “Deus criou a humanidade (adam em hebraico que significa os filhos e filhas da Terra, derivado de adamah que quer dizer terra fértil) à sua imagem…criou-os homem e mulher”(Gn 1,27). Como se depreende, aqui se afirma a igualdade fundamental dos sexos; ambos lançam sua origem em Deus mesmo, a suprema Realidade. Deus só pode ser conhecido pela via da mulher e pela via do homem. Qualquer redução deste equilíbrio, distorce nosso acesso a Deus e desnatura nosso conhecimento do ser humano, homem e mulher. No segundo Testamento encontramos em S. Paulo a formulação da igual dignidade dos sexos: “não há homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus”(Gl 3,28). Num outro lugar diz claramente: “em Cristo não há mulher sem homem nem homem sem mulher; como é verdade que a mulher procede do homem, é também verdade que o homem procede da mulher e tudo vem de Deus”(1Cor 11,12). Além disso, a mulher não deixou de aparecer ativamente nos textos fundadores. Nem poderia ser diferente, pois sendo o feminino estrutural, ele sempre emerge de uma forma ou de outra. Assim na história de Israel surgiram mulheres politicamente ativas como Miriam, Ester, Judite, Débora ou as anti-heroinas como Dalila e Jesabel. Ana, Sara e Rute serão sempre lembradas benfazejamente pelo povo. Inigualável é o idílio que cerca o amor entre o homem e a mulher no Cântico dos Cânticos. A partir do século terceiro a. C. a teologia judaica elaborou uma reflexão sobre a graciosidade da criação e da eleição do povo na figura feminina da divina Sofia (Sabedoria; cf. todo o livro da Sabedoria e os primeiros dez capítulos do livro dos Provérbios). Bem o expressou a conhecida teóloga feminista E. S. Fiorenza, “a divina Sofia é o Deus de Israel na figura da deusa”(10). Mas o que penetrou no imaginário coletivo da humanidade, de forma devastadora, é o relato anti-feminista da criação de Eva (Gn 1,l8-25) e da queda original (Gn 3,1-19: literariamente o texto é tardio, por volta do ano 1000 ou 900 a.C). Segundo o relato, a mulher é formada da costela de Adão que, ao vê-la, exclama: “ eis os ossos de meus ossos, a carne de minha carne; charmar-se-á varoa (ishá) porque foi tirada do varão(ish); por isso o varão deixará pai e mãe para se unir a sua varoa: e os dois serão uma só carne”(Gn 2,23-25). O sentido originário visava mostrar a unidade homem/mulher e fundamentar a monogamia. Entretanto, esta compreensão que em si deveria evitar a discriminação da mulher, acabou por reforçá-la. A anterioridade de Adão e a formação a partir de sua costela foi interpretada como superioridade masculina. O relato da queda é mais contundentemente antifeminista: “Viu, pois, amulher que o fruto daquela árvore era bom para comer..tomou do fruto e o comeu; deu-o também a seu marido e comeu; imediatamente se lhes abriram os olhos e se deram conta de que estavam nus”(Gn 3,6-7). O mito quer etiologicamente mostrar que o mal está do lado da humanidade e não do lado de Deus. Mas articula essa idéia de tal forma que trái o antifeminismo da cultura vigente naquele tempo. No fundo compreende-se a mulher como sexo fraco, por isso ela caiu e seduziu o homem. Daí a razão de seu submetimento histórico, agora ideologicamente justificado: “estarás sob o poder de teu madrido e ele te dominará”(Gn 3,16). Eva será para a cultura patriarcal a grande sedutora e a fonte do mal. Há uma leitura mais radical, provavelmente mais coerente com a luta dos gêneros, apresentada por duas conhecidas teólogas feministas, Riane Eisler e Françoise Gange(10b). Segundo estas duas autoras o relato atual do pecado original representa a releitura patriarcal do relato originário matriarcal. Seria uma espécie de processo de culpabilização das mulheres no esforço de arrebatar-lhe o poder e consolidar o domínio patriarcal. Os ritos e símbolos sagrados do matriarcado são diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior. Isso foi feito com tal sucesso que até os dias de hoje se pergunta se efetivamente existiram as deusas-mães e uma fase matriarcal da humanidade. O atual relato do pecado original acontecido no paraiso terrenal coloca em xeque quatro símbolos fundamentais da religião das grandes mães. O primeiro símbolo a ser atacado é a mulher mesmo que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal ela simbolizava a Grande-Mãe, a suprema divindade. Em segundo lugar, deconstrói-se o símbolo da serpente, considerado o atributo principal da Deus-Mãe. Ela representava a sabedoria divina que se renovava sempre como a pele da serpente. Em terceiro lugar, desfigura-se a árvore da vida, sempre tida como um dos símbolos principais da vida. Ligando como toda árvore o céu e a terra, ela continuamente renova a vida, como fruto melhor da divindade e do universo. O Gênesis 3,6 diz explicitamente que “a árvore era boa para se comer, uma alegria para os olhos e desejável para se agir com sabedoria” Em quarto lugar, destrói a relação homem-mulher que originariamente constituía o coração da experiência do sagrado. A sexualidade era sagrada pois possibilitava o acesso ao êxtase e ao conhecimento místico. Ora o que faz o atual relato do pecado original? Inverte totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Desacraliza-os, diaboliza-os e os transforma de bênção em maldição. Vejamos como: A mulher é eternamente maldita, feita um ser inferior, tentadora e sedutora do homem. Ela se sente atraida pelo homem por seu desejo sexual, apresentado negativamente. O texto bíblico diz expliciamente que “o homem a dominará”(Gen 3,16). O poder da mulher de dar a vida é transformado numa maldição e realizado entre sofrimentos (Gen 3,16). Como se depreende, a inversão é total e de grande perversidade. A serpente é maldita e feita símbolo do demônio. O símbolo principal da mulher é transformado em inimigo figadal da mulher, pois esta lhe esmagará a cabeça, como afirma o relato do Gênesis (3,15). A árvore da vida e da sabedoria cái sob o signo do interdito. Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora comer dela significa um perigo mortal, anunciado por Deus mesmo e sancionado pelos fatos. A partir de agora a árvore da vida é substituida pelo lenho morto da cruz, símbolo do sofrimento redentor de Cristo. O amor sagrado entre o homem e a mulher é substituido pelo casal do qual o homem é o chefe e a mulher é rebaixada e ridicularizada. A partir de então se tornou impossível uma leitura positiva da sexualidade, do corpo e da feminilidade. Aqui se operou um deconstrução total do mito anterior, feminino e sacral. Apresenta-se outro relato das origens que vai determinar todas as significações posteriores. Todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador. O trabalho das téologas é libertador: mostrar o caráter construido do atual relato dominante, centrado sobre a dominação, o pecado e a morte; e propor uma alternativa mais originária e positiva na qual apareça uma relação nova com a vida, com o poder, com o sagrado e com a sexualidade. Essa interpretação não visa repristinar uma situação passada, mas, ao resgatar o matriarcado, encontrar um ponto de equilíbrio maior entre os valores masculinos e femininos para os dias atuais. Estamos assistindo a uma mudança de paradigma nas relações masculino/feminino. Esta mudança deve ser consolidada com um pensamento mais profundo e integrador que traga uma qualidade de realização e de felicidade pessoal e coletiva maior do que aquela até hoje alcançada. Mas isso só se consegue descontruindo relatos que destroem a harmonia masculino/feminino e construindo novos símbolos que inspirem práticas civilizatórias humanizadoras para os dois sexos. 4. Jesus, amigo do gênero feminino, aprendeu das mulheres Em razão da utopia que prega – o Reino de Deus que implica uma libertação de todo tipo de opressão – quebra vários tabus que pesavam sobre as mulheres. Mantém uma profunda amizade com Marta e Maria (Lc 10,38); contra o ethos do tempo, conversa publicamente com uma hereje samaritana, a sós, junto ao poço de Jacó, causando perplexidade aos discípulos (Jo 7,53-8,10); deixa-se tocar e ungir os pés por uma conhecida prostituta, Madalena (Lc 7,36-50); são várias as mulheres que foram beneficiadas com seu cuidado e carinho, curando-as como a sogra de Pedro (Lc 4,38-39), a mãe do jovem de Naim, ressuscitado por Jesus (Lc 7,11-17), a filhinha morta de Jairo, oficial romano (Mt 9,l8-29), a mulher corcundinha (Lc 13,10-17), a pagã siro-fenícia, cuja filha, psiquicamente doente, foi libertada (Mc 7,26) e a mulher que sofria há doze anos de um fluxo de sangue (Mt 9,20-22). Todas elas foram curadas e consoladas. Em suas parábolas ocorrem muitas mulheres, especialmente, pobres como a que estraviou a moeda (Lc l5,8-10), a viúva que depositou dois trocados no cofre do templo e era tudo o que tinha (Mc 12,41-44), a outra viúva, corajosa, que enfrentou o juiz (Lc 18,1-8). Nunca são apresentadas como discriminadas mas com toda sua dignidade, à altura dos homens. A crítica que faz da prática social do divórcio, pelos motivos mais fúteis, e a defesa do laço indissolúvel do amor (Mc 10,1-10), representam intervenções, nitidamente, em favor da dignidade da mulher. Se admiramos a sensibilidade feminina de Jesus, seu enternecimento face aos pobres e oprimidos, seu profundo sentido espiritual da vida, a ponto de ver sua ação providente em cada detalhe da vida, nos lírios do campo e nos sinais atmosféricos, então devemos também supor que ele aprofundou esta dimensão a partir de seu contacto com as mulheres, aprendendo delas e vendo a realidade a partir da sensibilidade delas. Resumindo, a mensagem e a prática de Jesus significam uma ruptura com a situação imperante e a introdução de um novo tipo de relação, fundado não na ordem patriarcal da subordinação, mas no amor indiscriminado que inclui a igualdade entre o homem e a mulher. A mulher irrompe como pessoa, filha de Deus, destinatária do sonho de Jesus e convidada a ser, como os homens, também discípula e membro da nova comunidade messiânico-libertadora. Um dado da pesquisa recente vem confirmar e aprofundar esta constatação. A descoberta dos textos de Nag Hammadi em l945 no norte do Egito, quase todos da época do Novo Testamento, trouxeram à luz um outro Jesus. Tais dados são ignorados pelo grande público e insuficientemente incorporados na produção teológica comum(12). Assim dois destes textos, chamados evangelhos apócrifos por não constarem no canon oficial do Novo Testamento, – o evangelho de Maria e o evangelho de Felipe – mostram uma relação extremamente aberta de Jesus com respeito à afetividade. Ai se diz que ele entretinha uma relação especial com Maria de Mágdala, chamada de “companheira”(koinonos). No evangelho de Maria, Pedro confessa: “Irmã, nós sabemos que o Mestre te amou diferentemente das outras mulheres”(13) e Levi reconhece que “o Mestre a amou mais que a nós”(14), Ela vem apresentada como discípula querida de Jesus e sua principal interlocutora, comunicando-lhes ensinamentos subtraidos aos discípulos. Das 46 perguntas que os discípulos colocam a Jesus, depois de sua ressurreição, 39 são feitas por Maria de Mágdala. O evangelho de Felipe diz ainda: “três estavam sempre com o Mestre, sua mãe, Maria, sua irmã e a mulher de Mágdala, chamada sua “companheira”. Mais adiante particulariza afirmando: “O Senhor amava Maria mais que todos os demais discípulos e a beijava com frequência na boca. Os discípulos, ao verem que a amava, perguntavam-lhe: por que amas a ela mais que a todos nós? O Redentor lhes respondeu dizendo: o que? eu não devo amar a ela tanto quanto a vocês”?(l5) Embora tais relatos possam ser interpretados no sentido espiritual dos gnósticos, pois essa é sua matriz, não devemos, diz um especialista(16), excluir um fundo histórico verdadeiro, a saber, uma relação concreta e carnal de Jesus com Maria de Mágdala, base para o sentido espiritual. Por que não? Há algo mais sagrado que o amor efetivo entre um homem (o Filho do Homem, Jesus) e uma mulher(17)? Tal fato real serviria de base para a compreensão simbólica de que o contacto corporal de Jesus com Maria de Mágdala seria o sinal terrestre da união celeste com Deus. O par celestial, masculino e feminino, representaria o resgate da essência andrógina do começo. De todas as formas, Jesus inaugurou um novo tempo nas relações homem/mulher. Cabe, entretanto, reconhecer que não basta o princípio libertador. Precisa-se criar as condições ideológicas, econômicas e políticas para sua implementação histórica(18), que somente nos dias atuais, lentamente, estão ocorrendo, à revelia da Igreja institucional que persiste na negação da memória perigosa de Jesus. Mesmo assim importa ressaltar que o sonho originário nunca se perdeu totalmente. Houve pelo menos dois momentos no cristianismo, entre outros, em que o feminino e o masculino ganharam uma expressão exemplar. O primeiro ocorreu com Robert d’Abrissel (1045-116), fundador de uma das maiores abadias da cristandade em Fontevraud no vale do Loire. Partindo do fato de que ao pé da cruz estavam mulheres e o evangelista João (Jo 19,25-27) deduziu que homens e mulheres deveriam conviver fraternalemente; fundou uma abadia onde coexistiam monjes e monjas. Ele mesmo passava as noites entre as mulheres para mostrar a convivência entre os sexos. Confiou a direção da imensa abadia a uma abadessa e os demais priores estavam subordinados a ela. Tal regime funcionou até a revolução francesa. Outro momento importante para uma vivência nova entre os gêneros foi a relação afetiva profunda entre Francisco de Assis e Clara. O amor humano culminava no amor divino e a mesma opção pela altíssima pobreza unia seus corações. Tais exemplos continuam servindo de referência valorativa para muitos cristãos e religiosos. 5. Igualdade e subordinação: contradições
da cristandade Esses textos serão brandidos, pelos séculos afora, contra a libertação das mulheres, constituindo o cristianismo histórico, principalmente o de vertente romano-católica, um bastião de reacionarismo e de patriarcalismo(20). Ele não vive, profeticamente, sua própria verdade e em nome dela não resgata a memória libertária das origens, contestanto a cultura dominante senão que se deixa assimilar por ela e ainda cria um discurso ideológico de sua naturalização e, assim, legitimação. A essa ideologização de transfundo bíblico-teológico se acrescentou ainda uma outra de ordem biológica. Admitia-se, antigamente, que o princípio ativo no processo de geração de uma nova vida, dependia totalmente do princípio masculino. Levantava-se, daí, a questão: se tudo depende do homem por que então nascem mulheres e não só homens? A resposta, reputada científica pelos medievais, era a de que a mulher é um desvio e uma aberração do único sexo masculino. Em razão disso,Tomás de Aquino, repetindo Aristóteles, considerava a mulher como um “mas occasionatus” (um homem deficiente), mero receptáculo passivo da força generativa única do varão. Argumentava ainda: “A mulher necessita do homem não somente para engendrar, como fazem os animais, senão também para governar, porquanto o homem é mais perfeito por sua razão e mais forte por sua virtude”(21). Tais discriminações, embora sobre outras bases, agora psicológicas, ressoam, modernamente, para perplexidade geral, nos textos de Freud e de Lacan. Com razão se diz que a mulher é a última colônia que ainda não logrou sua libertação(22). O sonho igualitário das origens sobreviverá em grupos de cristãos marginais ou entre os considerados herejes(23) ou então é projetado para a escatologia, no termo da história humana. Foi preciso esperar os movimentos libertários feministas europeus e norte-americanos a partir de 1830 para fazer valer o antigo sonho cristão. À luz dos ideais do Iluminismo que afirmavam a igualdade original e natural entre homens e mulheres, Sarah Grimké podia escrever suas Letters on the Equality of the Sexes and the Condition of Woman (1836-1837), inspiradas nos textos bíblicos libertários e em 1848 em Seneca Falls, Nova Yorque, as líderes cristãs feministas podiam desenhar a Declaration of the Rights of Women, calcada sobre a Declaration of Independence dos USA e por fim começar a publicar em 1859 o The Woman’s Bible em Seattle (24). A partir de então formou-se a irrefreável onda do feminismo e do ecofeminismo modernos, movimentos seguramente dos mais importantes, no questionamento da cultura patriarcal nas igrejas e nas sociedades e na apresentação de um novo paradigma civilizacional. 6. Princípios teológicos para um equilíbrio dos
gêneros a)Igualdade originária entre homem e mulher b) Diferença e reciprocidade entre homem e mulher c) Homem e mulher, caminhos para Deus Efetivamente, mesmo as fontes patriarcais, souberam expressar a suprema Realidade sob a forma não só de pai, mas também de mãe, de sabedoria, de útero e de força generativa universal. Em termos rigorosos da teologia, quando dizemos Deus-Pai não dizemos uma coisa diferente do que quando dizemos Deus-Mãe. Por pai e mãe, pretendemos, teologicamente, expressar que a vida e a inteira criação têm sua origem em Deus e que se encontra sempre sob o cuidado e providência amorosa de Deus. Isso pode ser perfeitamente expresso pela categoria pai ou mãe(25). Portanto, temos sempre um caminho aberto para Deus, através de nossa própria humanidade una e diversa, masculina e feminina. Destruindo o humano perdemos Deus. Perdendo Deus, perdemos o sentido derradeiro de todas as coisas. d) Homem e mulher, caminho de Deus Há ainda um dado, singular ao cristianismo, que nos ajuda a aprofundar o fundamento divino do masculino e feminino. A maneira de nomear Deus no cristianismo é na forma de Trindade de divinas Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo(26). As Pessoas na compreensão trinitária significam relações de reciprocidade, de comunhão, de mutualidade,de inclusão, numa palavra, de amor. Deus emerge como um jôgo de energias originárias e eternas que somente existem na medida em que são uma para a outra, com a outra, pela outra e jamais sem a outra. Nenhuma dela pode ser substantivada em si sem as outras. Onde está uma estão simultaneamente as outras. Mesmo quando no caso da segunda Pessoa, o Filho, ter-se encarnado em Jesus de Nazaré, ela trás consigo as outras duas. É o que a teologia chama de pericórese, vale dizer, a inter-retro-relação e interpenetração das Pessoas divinas entre si. Esse jôgo de relações é tão completo que constitui um único movimento, uno e diverso. Ele funda um outro tipo de unidade divina, não dada previamente a tudo, mas sempre se construindo pelo jôgo das reciprocidades e de inclusões. Por isso dizemos que a essência íntima de Deus não é a solidão de uma única natureza ou substância dada, mas a comunhão de distintos que pela relação recíproca, se uni-ficam, ficam um. Quando dizemos Trindade, no fundo queremos dizer: o Deus que está acima de nós chamamos de Pai, o Deus que está ao nosso lado chamamos de Filho e o Deus que está dentro de nós chamamos de Espírito Santo. Não são três deuses (porque Deus não se multiplica) mas um e o mesmo Deus que, no nível existencial, assim se revela e assim é experienciado. Se Deus-comunhão é, uno e diverso, então sua imagem no mundo, o homem e a mulher, serão também unos e diversos, seres de comunhão, de reciprocidade e de relação. Jamais se poderá entender o feminino sem o masculino e o masculino sem o feminino. Eles permanecem sempre abertos um ao outro e inclusivos. e)Homem e mulher em Deus 7. Homem e mulher: Deus por participação Responder a tal questão equivale a estabelecer o quadro final (escatológico) do feminino e do masculino, não a partir deles mesmos mas a partir da última Realidade. No termo do infindável processo de evolução ou no termo de nosso percurso pessoal pela morte que poderão esperar o homem e a mulher? Que Deus preparou para nós? Qual é a nossa configuração terminal? Aqui não apenas nós seres humanos somos implicados mas o próprio Deus. Já consideramos que Deus é comunhão de divinas Pessoas, cada qual se comunicando absolutamente as outras. As Pessoas são diferentes para poderem se relacionar umas com as outras, sairem de si mesmas em doação às demais e assim se unirem e se uni-ficarem no amor. Essa mesma lógica essencial do Deus-comunhão-de-Pessoas se verifica no ato da criação. Deus-comunhão cria o diferente dele para poder seu auto-comunicar e se entregar totalmente a ele. Esse é o sentido divino da criação e, no caso em tela, do ser humano enquanto masculino e feminino: criar um receptáculo que pudesse acolher Deus quando esse Deus decidisse sair totalmente de si e entrar no ser humano, homem e mulher. Deus mesmo encontra uma realização que não tinha em si, uma realização no outro diferente dele. O masculino e feminino propiciam a Deus ser “mais” Deus, melhor, ser Deus de forma diferente. Por isso masculino e feminino são importantes para Deus. Permitem que Deus se faça também masculino e feminino. Para que pudesse acolher Deus, o próprio Deus dotou o ser humano, homem e mulher, com esta capacidade. Isso significa: deu-lhe um desejo ilimitado e uma sede insaciável pelo Infinito, de tal forma que somente Deus mesmo, como Infinito, pudesse ser o objeto secreto do amor, do desejo e e da sede insaciável. Esse ser será um ser trágico porque, ontologicamente, infeliz e frustrado. Percorrerá os céus e as terras, os abismos e as estrelas, os mistérios da vida e os anelos mais escondidos do coração para identificar o porto onde descansará. Dentro da presente ordem da criação não encontrará em lugar nenhum esse objeto ansiado e desejado. Quando, porém, Deus mesmo sai de si e se torna o Infinito dentro do ser humano, então ele descansará, pois encontrou o que ardentemente desejava. O cálice preparado para receber o vinho precioso, fica repleto do Vinho Precioso. O ser humano, homem e mulher, atingiu, finalmente, sua plena hominização, fazendo-se um com Deus. Deixará de ser trágico para ser bem-aventurado. Tal fato nos faz entender o que a tradição cristã com razão sempre afirmou: “a completa hominização do ser humano supõe a hominização de Deus e a hominização de Deus implica a completa divinização do ser humano”(27). Em outras palavras, o ser humano, homem e mulher, para tornar-se verdadeiramente ele mesmo, deve poder realizar as possibilidades depositadas dentro dele, especialmente essa de poder ser um com Deus, de superar a distância entre Deus e criatura e conhecer uma identifica-ção (ficar idêntico) com Deus. Quando ele chega a tal comunhão e uni-ficação (fica um) a ponto de formar com Deus uma unidade sem confusão, sem divisão e sem mutação, então atingiu o ponto supremo de sua hominização. Quando isso irrompe, Deus se humaniza e o ser humano se diviniza. Com isso o ser humano é superado infinitamente e realiza a sua natureza de projeto infinito. O termo da antropogênese reside, pois, na teogênese, no nascimento do ser humano em Deus e no nascimento de Deus no ser humano. Tal evento de ternura deve acontecer em todos os seres humanos, homens e mulheres. A fé cristã viu esse desígnio antecipado e, assim trazido à plena consciência, no homem de Nazaré, Jesus. Dele se diz que era o Filho, a segunda Pessoa da Trindade e que nele se encarnou, assumindo nossa realidade humana integral (Jo 1,14). Desde então se sabe que o masculino e o feminino, presentes em Jesus, penetraram no mistério mais íntimo de Deus. São parte do próprio Deus. Para sempre e por toda a eternidade. Pouco importa o que ocorrer com o fenômeno humano. Ele já virou Deus e é, por participação, a última Realidade. O masculino explicitamente porque Jesus era um homem. E o feminino implicitamente porque estava presente em Jesus como parte de sua humanidade integral, sempre também feminina. Mas convinha também que o feminino fosse divinizado explicitamente para haver um equilíbrio no desígnio de Deus(28). Efetivamente o texto bíblico de S. Lucas diz claramente que o Espírito, a Terceira Pessoa da Trindade, veio sobre Miriam de Nazaré e armou sua tenda de forma permanente sobre ela (1,35). O evangelista Lucas usa para a relação de Maria com o Espírito (que para o hebraico é feminino e assim revela uma conaturalidade com Miriam) a figura da tenda (skené = episkiásei), figura essa usada também pelo evangelista S. João para expressar a encarnação da Segunda Pessoa, o Filho, em Jesus (skené = eskénosen). Com isso quis sinalizar a espiritualização (“encarnação”) do Espírito em Mariam. Miriam é elevada à altura do Divino, é feita Deus, por participação. Consequentemente, diz o evangelista Lucas: “é por isso (dià óti) que o Santo que nascerá de ti será chamado Filho de Deus”(1,35). Só é Filho de Deus quem nasceu de alguém que é Deus (por participação). E esse alguém é a beatíssima mulher, Maria de Nazaré. Todas as mulheres, não só Maria, são chamadas a essa divinização, pois todas elas são portadores desta possibilidade de acolher Deus (o Espírito) em si. Essa possilidade vai, um dia, se realizar plenamente. Então cada mulher, a seu modo, será um com Deus. Eis seu quadro final e terminal, ser Deus por participação, Deus-Mulher, Deus-Esposa, Deus-Virgem, Deus-Mãe, Deus-Companheira. Miriam de Nazaré, Maria, é uma amostra antecipada daquilo que será realidade para todas as mulheres. Ela representa a realização individual desta revelação universal. Por ela ganhamos consciência de que o feminino foi divinizado juntamente com o masculino. O feminino, divinizado explicitamente em Maria, carrega consigo uma divinização implícita do masculino presente nela. Essa divinização do feminino não é apenas apanágio dos cristãos. As grandes tradições espirituais e religiosas afirmam o mesmo evento benaventurado sob outros códigos culturais. Nas diferenças de linguagem se quer testemunhar a mesma realidade sagrada. A energia que opera esta identificação do homem e da mulher com Deus é a Kundalini para a India, o Yoga para os yogis, o Tao para Lao Tsé, a Sheniká da mística judia da Kabala, o Espírito Santo para a tradição judaico-cristã. Em todas elas se trata de alcançar uma experiência de não-dualidade, de mergulho no Mistério a ponto de identificar-se com ele, sem contudo, perder a própria identidade. Por isso dizemos: todos somos e seremos Deus por participação. Essa compreensão não penetrou ainda na consciência oficial das Igrejas cristãs, marcadas pelo paradigma patriarcal. Mas sempre esteve presente nos portadores principais da herança espiritual do cristianismo que é o povo cristão(29). Este adora Maria como Deus-Mãe. Na arte sacra, nas ladainhas e mas invocações, Maria vem representada com todos os atributos das antigas divindades femininas. Maria é a única grande Deusa do Ocidente como o é Kuan Yin do Oriente e o foi Isis para as culturas antigas mediterrâneas(30) bem como é Yemanjá para a cultura popular brasileira de tradição afro-brasileira. Assim chegamos a um perfeito equilíbrio humano-divino. O ser humano em sua unidade e diferença faz parte do mistério de Deus. Não poderemos mais falar de Deus sem falar do homem e da mulher. Não poderemos mais falar do homem e da mulher sem falar de Deus. Escapa-nos o que significa, em sua última radicalidade, essa imbricação divino-humana. São mistérios que remetem a outros mistérios, mistérios não como limite da razão mas como o ilimitado da razão, mistérios que não metem medo quais abismos aterradores mas que extasiam quais píncaros de montanhas. No fundo se trata de um único Mistério de comunhão e doação, de ternura e de amor no qual Deus e seres humanos estão indissoluvelmente envolvidos. Deus não está mais longe de nós, longe de modo nenhum. Ele é a nossa mais profunda e próxima realidade, masculina e feminina. Somos Deus, enquanto homens e mulheres, por graciosa participação. 1)Cf. Noble, F. D., A World without Woman, N. York, Alfred Knopf 1993; Bornemann, E., Das Patriarchat, Frankfurt, Fischer 1979; Goud-Davis, E., The First Sex, N. York, Putman 1971(sobre o matriarcado que antecedeu ao patriarcado, daí ser o feminino, o primeiro sexo). 2) Há uma enorme literatura sobre o tema. Referiremos apenas a esses importantes: Mulack, Ch., Die Weiblichkeit Gottes. Matriarachalische Voraussetzungen des Gottesbildes, Stuttgart, Kreutzverlag 1983; Sjöo M. e Mor, B., The Great Cosmic Mother. San Francisco, HarperSan Francisco 1976; Stone, M., When God was a Woman, N. York, Dial Press 1976. 3) Santo Tomás de Aquino segue este caminho: Summa Theologica I q. 113, a. 8 ; para toda esta questão veja Johnson, E., Aquela que é. O mistério de Deus no trabalho teológico feminino, Petrópolis, Vozes 1995, 79-94; Gebara, I., Rompendo o silêncio. Uma femenologia feminista do mal. Petrópolis, Vozes 2000, 203-238. 4) Veja algumas contribuições: Gebara, I., Rompendo o silêncio, op.cit.; Scherzberg, L., Graça e pecado na teologia feminista, Petrópolis, Vozes 1997; Johnson, E., Aquela que é, op.cit.; Schüsser Fiorenza, E., Jesus, Child Sophia’s. Critical Issues in Feminist Christology, N.York, Continuum 1995; Ruether, R. R., Woman and Redemption. A Theological History, Minneapolis, Fortress Press 1998. 5) Cf. Ruether, R.R., Sexism and God-Talk. Towards a Feministic Theology, Boston, Beacon Press 1983; a crítica mais radical foi feit apor Mary Daly, Beyond God the Father. Towards a Philosophy of Women’s Liberation, Boston, Beacon Press 1973. 6) Veja o nosso próprio trabalho, O rosto materno de Deus op.cit. 73-117 com bibliografia; Rae, E. e Mary-Daly, B., Created in Her Image. Models of the Femine Divine, N.York, Crossroad 1990; Rae, E., Woman, the Earth, the Divine, N. York, Orbis Books 1994. 7) Vejas nossas reflexões: O que podemos esperar além do céu? em A fé na periferia do mundo, Petrópolis, Vozes 1978, 49-56; Id., O despertar da águia. O dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade, Petrópolis, Vozes 1999, 134-142. 8) Veja a obra bem cuidada de Sharma, A., Woman in World Religion. N.York, State University of New York 1987; Pikaza, X., La mujer en las grandes religiones, Bilbao, Desclée de Brouwer 1991. 9) A massa de bibliografia especializada sobre o tema é incomensurável. Para uma bom resumo e orientação sejam referidos os estudos de Denise, L. Carmody para o judaismo e de Rosemary R. Ruether sobre o cristianismo no livro acima citado de Arvind Sharma, Women in World Religions, pp. 183-235. 10) Cf. Schüssler Fiorenza, E., As origens cristãs a partir da mulher, S. Paulo, Paulinas 1992, 167. 10b) Eisler, R., Sacred Pleasure, Sex Myth and the Politics of the Body. New Paths to Power and Love, San Francisco, Harper 1995; Gange, F., Les dieux menteurs, Paris, Editions Indigo-Côté Femmes, 1997. 11) Sobre o tema há muitíssimos títulos; referimos um dos mais originais e recentes de Gange, F., Jésus et les femmes, Paris, Seuil 2000; Schüssler-Fiorenza, E., Discipulado de iguais. Petrópolis, Vozes 1995; Bieberstein, S., Verschwiegene Jüngerinnen – vergessene Zeugnissen. Gebrochene Konzepte im Lukasevangelium, Göttingen, Universitätsverlag Freiburg Schweiz/Vanderhoeck & Ruprecht 1998, 25-76; 279-284. 12) Veja a reunião dos textos traduzidos do copta e do grego para o inglês Robinson, J. M., The Nag Hammadi Library in English, San Francisco, Harper&Row 1977; veja também algumas investigações beseadas em tais textos: Piñero, A., El otro Jesus. Vida de Jesús en los apócrifos, Cordoba, Ediciones El Almendro 1993; Pagel, F., Les évangiles secrets. Paris, Gallimard 1982; Gillabert, E., Jésus et la Gnose, Paris, Dervy 1981; Tunc, S., Des femmes aussi suivaient Jésus, Paris, Desclée de Brouwer 1998. 13) Citamos aqui a edição de Leloup, J. Y., O evangelho de Maria, Míriam de Mágdala, Petrópolis, Vozes 1998, folha 10,2-3. 14) Id.,folha 18, 14. 15) Os textos são citados segundo Piñero, A., El otro Jesus, op.cit. 113; há um site na intenet com o texto completo desse envagelho de Felipe: www. metalog.org 16) Id.ibd. 17) Veja as refleões de J. Y. Leloup em seu O evangelho de Maria: “Segundo o ditado dos antigos, ‘tudo aquilo que não é assumido não é salvo’. Se Jesus,considerado o Messias, o Cristo, não assume a sexualidade, esta não é salva. Ele não é mais o Salvador no sentido pleno do termo e é uma lógica mais de morte que de vida que se instalará no cristianismo – particularmente no cristianismo romano-ocidental: O Cristo não assumiu sua sexualidade, portanto, a sexualidade não é ‘salva’, portanto a sexualidade é má, portanto assumir sua sexualidade pode ser degradante e pode então nos tornar ‘culpados’. A sexualidade assim culpabilizada pode se tornar perigosa, tornar-nos efetivametne doentes. O instrumento co-criador da vida que nos fazia existir ‘em relação’, ‘à imagem e semelhança de Deus’ torna-se assim, logicamente, um instrumento de morte. O evangelho de Maria, como o de João e o de Felipe nos lembram que Jesus era capaz de intimidade com uma mulher. Esta intimidade não era somente carnal, ela era afetiva, intelectual, espiritual; trata-se mesmo de salvar, quer dizer, de tornar livre o ser humano em sua inteireza, e isto, introduzindo a consciência e o amor em todas as dimensãoes de seu ser. O evangelho de Maria, lembrando o realismo da humanidade de Jesus em sua dimensão sexuada, nada tira do realismo de sua dimensão espiritual, ‘pneumática’ ou divina”(p. 14); confira para toda esta questão o minucioso livro de Sebastiani, L.,Maria Madalena. De personagem do evangelho a mikto de pecadora redimida, Petrópolis, Vozes 1995, esp.20-70. 18) Veja as reflexões críticas de J. M. Aubert, La mujer. Antifeminismo y cristianismo, Barcelona, Herder 1976, 26-32; 91-94. 19) Veja o clássico livro de Borresen, K. E., Subordination et équivalence. Nature et rôle de la femme d’après Augustin et Thomas d’Aquin, Oslo e Paris, Gallimard 1968; Bucker, B. P., O feminino da Igreja e o conflito, Petrópolis, Vozes 1996, especialmente 140-190. 20) Conhecida é a frase de uma feminista alemã M. Winternitz: “ A mulher sempre foi a melhor amiga da religião, a religião, no entanto, jamais foi amiga da mulher”. 21) Cf. Summa Theologica I.q.92, a.1 ad 4; Summa contra Gentiles III, 123. 22) Veja o conhecido livro com o mesmo título de M. Mies, Woman, the Last Colony, Londres, Zed Books 1988. 23) O grupo cristão mais coerente em termos da equivalência dos sexos foram os Shakers ou a Sociedade Unida dos Crentes na Segunda Aparição de Cristo, de origem inglesa (1770), depois imigrada para os USA (1774). Para eles tudo era andrógino. Deus era masculino/feminino, bem como a antropologia, a cristologia, a eclesiologia e a organização social. Para eles a encarnação em Jesus foi incompleta pois assumiu apenas o masculino; deve-se esperar a encarnação no feminino para completar o resgate pleno do ser humano; veja um bom resumo em Women in World Religions, op.cit. 227-228. 24) Veja a recoleção dos principais textos das feministas dos primórdios do movimento europeu e norte-americano, em Moltmann-Wendel, E., (org) Frau und Religion, Frankfurt, Fischer 1983; Russel, L. M., Human Liberation in a Feminine Perspective – A Theology, Philadelphia, The Westminster Press 1974. 25) Veja as excelentes reflexões do grande teólogo católico Karl Rahner, em Röper, A., Ist Gott ein Mann? Ein Gespräch mit Karl Rahner, Düsseldorf, Patmos 1979; van Lunen-Chenu, M.-T. e Gibellini, R., Donna e teologia, Brescia, Queriniana 1988; Hunt, M. e Gibellini, R., La sfida del femminismo alla teologia, Brescia, Queriana 1980; excelentes são os números completos da revista internacional Concilium dedicados à questão das mulheres: o n. 202 de 1985, A mulher invisível na teologia e na Igreja; o n. 238 de 1991, Mulher-mulher e o n. 281 de 1999, A não ordenação da mulher e a política do poder. 26) Uma reflexão mais detalhada se encontra em meu livro A Trindade, a Sociedade e a Libertação, Petrópolis, Vozes 1979. 27) Veja a articulação dessa idéia em Boff, L., O evangelho do Cristo cósmico, Petrópolis, Vozes 1971; Id., Jesus Cristo libertador. Ensaio de cristologia crítica para o nosso tempo, Petrópolis, Vozes 1972, 272-275; veja também as boas reflexões de J. Ratzinger, Introdução ao Cristianismo, S. Paulo, Herder l970, 189-190. 28) A argumentação teológica dessas afirmações se encontram em meu livro O rosto materno de Deus, Petrópolis, Vozes 1979, 92-117 e difundida em outras obras minhas; veja também a discussão desta idéia entre as feministas que, em sua grande maioria, não assumiram o quinhão de divindade pertencente à mulher, ficando por isso, dependentes da divinização do masculino em Jesus, impedindo uma libertação realmente total da mulher: Irigaray, L., Equal to wohm? em Differences 1(1989) 69ss; Rae, E., Women,the Earth, the Divine, N. York, Orbis Books 1994, 81-93; Johnson, E., Aquela que é, Petrópolis, Vozes 1995. 294-302; Burns, J. E., God as Woman, Woman as God, N.York, Paramus 1973 e outras. 29) Veja as reflexões bem documentadas de Walker, B. G., Retoring the Goddess, N. York, Promethes Books 2000, 341-356; famosas são as reflexões de C.G. Jung ao mostrar que os católicos em seu inconsciente coletivo e contra sua Igreja oficial, têm Maria como divindade; para toda esta questão veja Unterste, P. Der Archetypus des Weiblichen in der chritlichen Kultur, em Die Quartenität bei C.G. Jung, Zurique 1972. 30) Veja Blofeld, J., A deusa da compaixão e do amor. O culto místico de Kuan Yin. S. Paulo, IBRASA 1995.
|