| Como enriquecer a teologia da libertação A teologia da liberação nasceu ouvindo o grito massivo dos pobres entendidos como injustamente oprimidos. Seu mérito foi ter dado centralidade ao empobrecido, fazendo-o sujeito de sua própria libertação e lugar epistemológico, vale dizer, lugar a partir donde se entende melhor o Deus da revelação como Deus vivo que escuta o grito das vítimas, se decifra sem dubiedade a missão de Jesus, promotor de vida em abundância e, por isso, libertador de todas as opressões, se define mais adequadamente a missão da Igreja, como sacramento de libertação e se impõe a urgência de mudar o tipo de sociedade vigente. Em primeiroi lugar vem a sensibilização face a anti-realidade dos pobres, a compaixão, a iracúndia sagrada, o encontro silencoso e místico com o Cristo sofredor que continua sua paixão nesses irmãos e irmãs menores. Em seguida vem a prática de libertação, que deixando para trás o mero assistencialismo, faz dos próprios oprimidos, sujeitos principais de sua libertação. Sobre essa prática, se organiza a reflexão crítica, em primeiro lugar de ordem analítica, identificando as causas histórico-sociais, geradoras de empobrecimento e, em seguida, de natureza religiosa, bíblica e teológica, chamada então de teologia da libertação. Por fim, surge a celebração onde se celebra Deus agindo nos processos de libertação e se fortalecem as motivações para continuar resistindo e lutando. Os empobrecidos têm muitos rostos. Nos fins dos anos 60 enfatizou-se o pobre econômico-político; nos anos 70 o pobre cultural, como os índios, negros e minorias discriminadas; nos anos 80 deu-se ênfase à questão de gênero, especialmente a subjugação secular da mulher; os anos 90 começou-se a ouvir o grito da Terra, também empobrecida porque injustamente agredida e, de forma sistemática, explorada. Para cada opressão concreta procurou-se desenvolver uma correspondente estratégia e pedagogia de libertação. Nunca a teologia da libertação foi vítima de um conceito pauperista dos pobres. Sempre procurou aprofundar a complexa realidade da pobreza injustamente infligida. Todo esse empenho conferiu, em todos os níveis, dignidade ao Cristianismo, especialmente pelas perseguições, sequestros, torturas e martírios sofridos por muitos seus representantes, perseguições movidas por irmãos e irmãs de fé, desde o Papa Woitylla até os agentes de segurança dos Estados ditatoriais do Brasil, do Uruguai, da Argentina, do Chile e da América Central. Ele se resumiu naquiilo que é a marca registrada da teologia da libertação: a opção pelos pobres, contra sua pobreza e em favor de sua vida e libertação. Eis o mínimo do mínimo da teologia da libertação. Como se viu, a teologia da libertação nunca foi um sistema fechado como é o sistema curial romano e sua teologia oficial subjacente. Como se trata de libert-ação, a ação que liberta a partir da fé, sempre mostrou capacidade de aprender dos desafios do tempo e dar-lhes uma resposta corajosa e contemporânea. Não esperou que a história passasse para sobre ela, comodamente, fazer reflexões. Procurou ajudar na moldagem dessa história com a contribuição da fé, assumindo os riscos e equívocos nisso implicados. A teologia da libertação sempre esteve às voltas com a mudança de paradigma, diferente daquele no qual a teologia comum vem elaborada, paradigma eclesiástico, ou da modernidade, do discurso acadêmico, das elites sociais e eclesiais. Entrar no mundo dos pobres implica confrontar-se com uma outra racionalidade, com a lógica simbólica e sacramental dos pobres, com o seu universo vital, mais sofrido que pensado e sistematizado. Tal dialogação representou um aprendizado enorme dos teólogos que foram literalmente evangelizados pela densidade espiritual e humana dos condenados da terra. O mesmo confronto ocorreu quando dialogou com as culturas não-ocidentais como a das diferentes nações indígenas e as culturas afro-latino-americanas. Houve um aprendizado significativo e um questionamento fundamental da matriz oficial, sempre vinculada ao discurso das clases hegemônicas, praticamente, desde o século III quando se deu a primeira sintentização entre pensamento grego e fé evangélica. Essas culturas permitem a elaboração de um rosto novo do Cristianismo, ainda pouco ensaiado na história. Não foi menor a mudança paradigmática produzida pela questão de gênero, particualarmente tratada pelas mulheres. Elas ajudaram a reconhecer a opressão que nós homens temos imposto às mulheres, desde o neo-lítico, formularam propostas de como chegar a relações equilibradas entre homem-mulher e de ver a realidade especialmente religiosa a partir da ótica feminina. Essas mudanças paradigmáticas estão ainda em curso. Nem todos conseguiram assimilar esses novos paradigmas, superando o patriarcalismo, o machismo e o etnocentrismo. Mas todos têm a chance de se deixar evangelizar e enriquecer sua própria humanidade e produção teológica e espiritual. Agora a teologia da libertação se confronta com mais uma mudança paradigmática: como situar a reflexão teológica no contexto da nova imagem do mundo, que está surgindo das ciências da terra, da cosmologia contemporânea e da evolução ampliada? Que lugar ocupa o pobre dentro desta reflexão? As dificuldades não são poucas. Uma convicção, entretanto, ganha força em nós: assim como a teologia da libertação cresceu, enriquecendo sua leitura dos pobres e ampliando seu espectro libertador, assim também agora incorporará esse novo paradigma para enriquecimento da experiência espiritual e para alargamento da dignidade dos pobres e de sua libertação. Neste ensaio procuraremos colocar a questão de forma a facilitar a travessia de um paradigma ao outro. 1.A nova centralidade: o futuro do grande Pobre, a Terra, e a humanidade. Todos sofremos sob esse paradigma que, a ser levado avante nas circunstâncias atuais, pode nos destruir a todos. Por isso somos todos oprimidos e empobrecidos, pois não temos o futuro da humanidade e da Terra garantidos. As forças diretivas da natureza não garantem mais a sobrevivência; o ser humano deve politicamente decidir viver e garantir futuro para si e para sua casa comum. Terra e humanidade somos como uma nave espacial em pleno vôo. Essa nave tem recursos limitados de combustível, de alimentos e de tempo de transcurso. 1% dos passageiros viaja na primeira classe com super-abundância de meios de vida. 4% na classe econômica com recursos abundantes. Os restantes 95% estão junto às bagagens no frio e na necessidade. Pouco importa a situação social e econômica dos passageiros. Todos correm ameaça de vida pelo esgotamento dos recursos da nave. Todos terão o mesmo destino dramático, ricos, remediados e pobres, caso não houver um acordo de sobrevivência para todos indistintamente. Desta vez não há uma arca de Noé que salve alguns e deixe perecer os demais. Esse não é um cenário de fantasia alarmista, mas a projeção dos institutos mais sérios que, de forma cotidiana e sistemática, fazem o acompanhamento do estado da Terra. Esta situação é nova na história política da humanidade. O contrato social do passado, subjacente às sociedades atuais, não incluía a Terra; esta era dada como assegurada, campo de exercício da livre atividade dos cidadãos. Hoje essa pressuposição se evaporou. Temos que garantir a Terra e as condições de reprodução da humanidade. Sem essa garantia nada mais faz sentido. Por isso no atual pacto social planetário a Terra, os ecosistemas, as condições físico-químicas de sustentação do todo ecológico devem entrar impreterivelmente. A Terra e todos os seres possuem, pois, subjetividade, vale dizer, devem ser respeitados e incluidos (biocracia, cosmocracia), pois sem eles o projeto social humano se torna impossível. Tal constatação funda uma nova radicalidade histórico-social: em que medida cada ser humano, cada saber, cada força social, cultural e religiosa, no nosso caso, cada corrente teológica, ajuda a garantir um futuro de vida para a Terra e a humanidade. A questão não é mais: que futuro terão os pobres, ou o projeto da tecno-ciência, ou o Cristianismo, a teologia da libertação ou o papado? Todos terão futuro na medida em que a Terra e a humandiade terão futuro. Esse deve ser construído solidariamene, caso contrário, podemos conhecer o destino dos dinossauros. Retomando: a centralidade não está mais no pobre, sócio-econômico, político, cultural, étnico, feminino, como na formulação clássica da teologia da libertação dos anos 70 e 80 mas no grande pobre, a Terra, como está sendo percebido a partir dos anos 90. Na opção original pelos pobres deve entrar, primeiramente, o grande pobre que é a Terra e a humanidade, base que, garantida, possibilita então colocar a questão do futuro dos pobres e dos condenados da Terra. Precisamos todos ser libertados, seres humanos, homens, mulheres, pobres, negros, indígenas, ricos e Terra, de um paradigma civilizacional, hoje mundializado, que nos pode coletivamente destruir (liberação de). Ou mudamos ou morremos. O que virá depois, se sobrevivermos? Qual a alternativa a ser construida (libertação para)? Aqui comparece a nova cosmologia e o lugar que o pobre ocupa nela. Por cosmologia entendemos a imagem do mundo que nos fazemos, baseada em inúmeros dados, principalmente vindos das ciências da Terra e da vida; outros são de natureza ético-espiritual; por fim aqueles da percepção comum, produzida pelo espírito de nosso tempo. Das intuições e perspectivas dessa nova cosmologia, se derivam cenários que fundam uma nova esperança e um horizonte de futuro para a Terra e a humanidade. A teologia, como parte da reflexão humana geral, deve mover-se dentro desse horizonte comum, oferecer sua colaboração e pronunciar sua palavra de sentido. 2.Marcos da nova cosmologia: o teatro cósmico Em seguida, no interior das grandes estrelas vermelhas se formaram, em bilhões de anos de trabalho, todos os elementos físico-químico pesados que entram na composição de todos os corpos do universo, também dos nossos. É o momento químico. Com a explosão destas estrelas se forma o atual universo. A matéria e os campos energéticos se complexificam mais e mais e daí surge, como imperativo cósmico, a vida como auto-organização da matéria (que nunca é material mas sempre interativa porque representa energia condensada). É o momento biológico. Da história da vida emerge a vida humana como expressão de uma complexidade avançada da evolução. É o momento antropológico, caracterizado pela consciência reflexa, pela liberdade e auto-criação. Os humanos, por sua vez, levam mais longe ainda a complexidade, se expandindo por toda a Terra, ocupando todos os espaços, se adaptando e modificando todos os ecosistemas, no solo, no subsolo, no ar e fora da Terra, criando as mais diversas configurações culturais e hoje convergindo, aceleradamente, rumo a uma única grande sociedade mundial (geosociedade) É o momento da globalização que temos o privilégio de compartilhar. Esse imenso processo revela uma rede de implicações inter-retro-conectadas que importa enfatizar. - Há um todo dinâmico e orgânico constituindo um sistema aberto. Nada acabou de nascer mas se encontra ainda em gênese. A evolução não se processa linearmente mas por rupturas e saltos a ordens mais complexas e mais altas. - O todo é uno e dinâmico mas contem uma diversidade inimaginável de seres e de energias. - Os seres, energias e as ordens são interdependentes. Tudo tem a ver com tudo em todos os pontos, circunstâncias e tempos. - A interdependência revela a cooperação de todos com todos. Essa é a lei mais fundamental do universo: a sinergia, a solidariedade e a cooperação. Todos e tudo conspira para que cada ser e cada ordem continue a existir e a co-evoluir. A seleção natural pela competição e vitória do mais forte (Darwin) deve ser entendida dentro e não acima desta universal conspiração cooperativa de todos com todos. - Tal interdependência e cooperação faz com que todos se complementem uns aos outros. Nada é supérfluo ou vem excluido. Todos concorrem para a grandeza e a beleza do todo orgânico e dinâmico. A evolução é sempre co-evolução, nunca somente de um ser ou de uma espécie ou de um eco-sistema, mas da totalidade que evolui. - Essa mutualidade e reciprocidade de todos com todos garante a sustentabilidade dos sistemas e de seus representantes. Quer dizer: quanto maior for a rede de inter-retro-conexões mais garantida é a sobrevivência no presente e também no futuro. - O equilíbrio que preside a todo o processo é dinâmico, sempre aberto a novos patamares de realização. Isso se deve ao caráter permanentemente caótico do processo, isto é, sujeito a permanentes flutuações e distanciamentos do equilíbrio que, por sua vez, provocam a busca de um outro ponto de equilíbrio, esse também dinâmico e aberto e assim indefinidamente. A vida surgiu de uma situação longe do equilíbrio e a biodiversidade remete a equilíbrios diferentes, todos eles dinâmcos e interconectados. - A evolução jamais é só adaptação de todos com todos dentro dos ecosistemas, mas é também troca de informações e aprendizado. - A matéria e todas as coisas são portadores não apenas de massa e de energia mas também de informação porque estão permanentemente em interação, em processos de troca, assimilação, rejeição, composição e aprendizagem. Todos vêm marcados por esse processo ininterrupto fazendo com que todos os seres tenham história, irreversibilidade, interioridade e subjetividade. O universo, portanto, não é a soma de todos os objetos existentes, mas a rede de relações de todos os sujeitos entre si. Por espírito se entende a capacidade de panrelacionalidade de tudo com tudo. Como esse processo comparece desde o primeiríssmo momento, o espírito tem a mesma ancestralidade do universo. Todos, à sua maneira, são portadores de espírito. O princípio da relacionalidade é sempre o mesmo (a unidade do espírito), variam, no entanto, as formas de sua concretização e de sua manifestação (variedades de portadores entre os quais o ser humano, de forma reflexa e consciente mas não exclusiva). - O todo revela propósito e sentido. Se o universo quissesse atingir o ponto que hoje atingiu, deveria ter feito exatamente tudo o que fez. Um pequeníssimo desvio na calibragem das energias primordiais teria ocasionado ou a implosão dos sistemas constituidos, ou a dispersão da matéria sem criar ordens densas ou o gerado outro tipo de universo. O propósito do universo não é apenas perpetuar o que existe, mas ocasionar a realização das potencialidades existentes no próprio universo. O real é então real-ização, algo feito e sempre por fazer. A ordem explícita remete a uma Ordem Implícita e o todo postula um conjunto superior inteligente, o que permite a muitos cosmólogos sustentarem a visão de que o universo é auto-consciente. - Por fim, essa projeção nos obriga pensar a realidade não como uma máquina mas como um organismo vivo, não como blocos estanques, mas como sistemas abertos e em redes de relação. A tendência de cada ser a se auto-afirmar é complementada pela tendência a se integrar num todo maior. Importa, pois, passar das partes para o todo, dos objetos para os sujeitos, das estruturas para os processos, das posições para as relações. Tudo no universo é, pois, con-criativo, co-participativo, ligado e re-ligado a tudo e a todos. 3. O lugar do ser humano no conjunto do seres Entretanto, ele possui uma singularidade: ele pode intervir intencionalmente na natureza. Por um lado ele se encontra dentro da natureza como parte dela; por outro ele está de frente à natureza, como quem pode intervir nela. Ele co-pilota, então, o processo da evolução dentro do qual ele co-evolui. Ele se torna, pois, um ser co-responsável. É a sua dimensão ética. O princípio axial dessa ética da co-responsabilidade pode ser assim formulado: “aja de tal maneira que os efeitos de sua ação sejam benéficos para os seres e para as relações de todos com todos”. Ou pode ser formulado também negativamente: “aja de tal maneira que os efeitos de sua ação não sejam destrutivos dos seres e das relações de todos com todos”. Portanto, o ser humano pode intervir no sentido da própria natureza, potenciando virtualidades presentes, como pode intervir freando, frustrando e destruindo virtualidades. Ele pode ser o anjo bom, o guardião e jardineiro como pode ser o satã e o destruidor da Terra. Por que essa ambiguidade fundamental? Eis um desafio para toda razão analítica. Na verdade, um mistério, talvez somente esclarecível a partir de uma razão transcendente e, no termo, teológica. De todas as formas, podemos dizer que o mal é originário e comparece como condição da evolução entendida como um sistema aberto. O caos e a desordem são ocasião de surgimento de novas ordens. A seta do tempo aponta sempre para frente e para cima, acena para ordens cada vez mais complexas e superiores tendendo a transformar o caos em cosmos, a desordem em ordem, o dia-bólico em sim-bólico e a entropia em sintropia. Portanto, a superação progressiva do mal. É no nível humano que pode emergir a tragédia da opressão e da exclusão. O ser humano pode ativar suas potencialidades destruivas ou pode perder o sentido da justa medida provocando vítimas. Por exemplo, há duas tendências básicas em todos os seres vivos: a tendência à auto-afirmação e a tendência à relação com outros, integrando-se num todo maior. Um ser ou um sistema pode potenciar de tal forma a auto-afirmação que ameaça, submete ou elimina os que lhe possam significar alguma limitação. Deixa de relacionar-se e integrar-se com os demais, de quem, na verdade depende para subsistir. O capitalismo, por exemplo, com sua vontade de acumulação privada, significa, nesta visão, uma exacerbação da vontade de auto-afirmação. É o império do eu que não se abre ao nós. Ele possui seus atrativos porque realiza uma dimensão verdadeira do humano, apenas de forma mutilada, sem o seu correlato, a vontade de relação e de solidariedade para com os outros. Outro sistema pode inflacionar a vontade de relação e integração que não deixa espaço para a legítima auto-afirmação. É o reino do nós fechado ao eu. É o vício de um tipo de socialismo estatal que anula as individualidades. A justa medida da auto-afirmação e do relacionamento representa a sanidade e o equilíbrio necessário que confere sustentabilidade ao processo evolucionário e humano. A ruptura desse equilíbrio introduz a vitimação dos seres e do sistema da vida. 4.O pobre e o excluido, vítimas da injustiça ecológica
e social Ao analisarmos os mecanismos do empobrecimento não podemos nos deter apenas na identificação das causalidades econômicas, políticas e culturais. Importa incluir a análise das relações que uma sociedade determinada entretem com a natureza dentro da qual se encontra o ser humano. No nosso caso da relação dominante de cariz capitalista, é vítima de uma dupla injustiça: da injustiça ecológica e da injustiça social, ambas intrelaçadas pela mesma lógica da exploração e da devastação da comunidade de vida. Hoje não apenas os pobres gritam. Gritam também a terra, as águas, os ares submetidos a formas de utilização depredadora e destrutiva, enfim, grita o inteiro planeta Terra sob uma sistemática máquina de devastação e de morte. A opção pelos pobres – marca registrada da teologia da libertação – deve ser integral: todos os pobres com todos os seus distintos rostos, e o grande pobre que é a Terra como Gaia, Pachamama e Grande Mãe. A todos importa libertar. Nesse processo de libertação
global e integral impõem-se prioridades: Em segundo lugar importa garantir a continuidade da espécie homo sapiens e demens, preservar as condições de sua reprodução e ulterior desenvolvimento já que ele é um ser interativo e con-criador. Em terceiro lugar, é urgente enfrentar o empobrecimento injusto das grandes maiorias da humanidade que se encontram debaixo do limite da pobreza, vale dizer, dos excluidos, empobrecidos e marginalizados mediante a implantação de um tipo de sociabilidade que garanta o suficiente e o decente para todos. Aqui se abre o espaço de resgate das tradições da solidariedade, nomeadamente, do socialismo entendido como a realização plena da democracia levada a todos os campos, ao econômico, ao político, ao social, ao cultural, ao familiar e ao cotidiano das relações de gênero. Em quarto lugar faz-se mister salvar espécies em extinção seja de animais, vegetais e micro-organismos pois seu desparecimento empobrece a biodiversidade, afeta a inegridade da natureza e reduz recursos talvez necessários para a cura da vida ou para a sustentabilidade das sociedades humanas e de seu ulterior desenvolvimento. Em quinto lugar cabe garantir a qualidade de vida de toda a comunidade de vida (seres humanos e outros organismos vivos que constituem a comunidade biótica) no sentido de garantir o patrimônio natural e cultural comum para as gerações presentes e para as gerações futuras. 5. Conclusão: nova urgência da teologia da libertação O fato brutal da pobreza como empobrecimento seja da Terra como um todo, seja dos principais ecosistemas, seja das grandes maiorias da humanidade, representa o ponto detonador de uma nova reflexão paradigmática e o provocador de práticas salvacionistas. Faço minhas as palavras inspiradas da Carta da Terra, aquele documento que se destina a gerar um novo estado de consciência na humanidade face aos riscos e as chances da crise mundial: “Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, por um compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, pela pronta luta pela justiça, pela paz e pela alegre celebração da vida” Algumas indicações bibliográficas mínimas para quem quiser aprofundar a questão da nova cosmologia: Boff, L., Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Atica, S.Paulo
1995.
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