Como enriquecer a teologia da libertação
Pobre, Nova Cosmologia e Libertação

A teologia da liberação nasceu ouvindo o grito massivo dos pobres entendidos como injustamente oprimidos. Seu mérito foi ter dado centralidade ao empobrecido, fazendo-o sujeito de sua própria libertação e lugar epistemológico, vale dizer, lugar a partir donde se entende melhor o Deus da revelação como Deus vivo que escuta o grito das vítimas, se decifra sem dubiedade a missão de Jesus, promotor de vida em abundância e, por isso, libertador de todas as opressões, se define mais adequadamente a missão da Igreja, como sacramento de libertação e se impõe a urgência de mudar o tipo de sociedade vigente.

Em primeiroi lugar vem a sensibilização face a anti-realidade dos pobres, a compaixão, a iracúndia sagrada, o encontro silencoso e místico com o Cristo sofredor que continua sua paixão nesses irmãos e irmãs menores. Em seguida vem a prática de libertação, que deixando para trás o mero assistencialismo, faz dos próprios oprimidos, sujeitos principais de sua libertação. Sobre essa prática, se organiza a reflexão crítica, em primeiro lugar de ordem analítica, identificando as causas histórico-sociais, geradoras de empobrecimento e, em seguida, de natureza religiosa, bíblica e teológica, chamada então de teologia da libertação. Por fim, surge a celebração onde se celebra Deus agindo nos processos de libertação e se fortalecem as motivações para continuar resistindo e lutando.

Os empobrecidos têm muitos rostos. Nos fins dos anos 60 enfatizou-se o pobre econômico-político; nos anos 70 o pobre cultural, como os índios, negros e minorias discriminadas; nos anos 80 deu-se ênfase à questão de gênero, especialmente a subjugação secular da mulher; os anos 90 começou-se a ouvir o grito da Terra, também empobrecida porque injustamente agredida e, de forma sistemática, explorada. Para cada opressão concreta procurou-se desenvolver uma correspondente estratégia e pedagogia de libertação. Nunca a teologia da libertação foi vítima de um conceito pauperista dos pobres. Sempre procurou aprofundar a complexa realidade da pobreza injustamente infligida.

Todo esse empenho conferiu, em todos os níveis, dignidade ao Cristianismo, especialmente pelas perseguições, sequestros, torturas e martírios sofridos por muitos seus representantes, perseguições movidas por irmãos e irmãs de fé, desde o Papa Woitylla até os agentes de segurança dos Estados ditatoriais do Brasil, do Uruguai, da Argentina, do Chile e da América Central. Ele se resumiu naquiilo que é a marca registrada da teologia da libertação: a opção pelos pobres, contra sua pobreza e em favor de sua vida e libertação. Eis o mínimo do mínimo da teologia da libertação.

Como se viu, a teologia da libertação nunca foi um sistema fechado como é o sistema curial romano e sua teologia oficial subjacente. Como se trata de libert-ação, a ação que liberta a partir da fé, sempre mostrou capacidade de aprender dos desafios do tempo e dar-lhes uma resposta corajosa e contemporânea. Não esperou que a história passasse para sobre ela, comodamente, fazer reflexões. Procurou ajudar na moldagem dessa história com a contribuição da fé, assumindo os riscos e equívocos nisso implicados.

A teologia da libertação sempre esteve às voltas com a mudança de paradigma, diferente daquele no qual a teologia comum vem elaborada, paradigma eclesiástico, ou da modernidade, do discurso acadêmico, das elites sociais e eclesiais. Entrar no mundo dos pobres implica confrontar-se com uma outra racionalidade, com a lógica simbólica e sacramental dos pobres, com o seu universo vital, mais sofrido que pensado e sistematizado. Tal dialogação representou um aprendizado enorme dos teólogos que foram literalmente evangelizados pela densidade espiritual e humana dos condenados da terra.

O mesmo confronto ocorreu quando dialogou com as culturas não-ocidentais como a das diferentes nações indígenas e as culturas afro-latino-americanas. Houve um aprendizado significativo e um questionamento fundamental da matriz oficial, sempre vinculada ao discurso das clases hegemônicas, praticamente, desde o século III quando se deu a primeira sintentização entre pensamento grego e fé evangélica. Essas culturas permitem a elaboração de um rosto novo do Cristianismo, ainda pouco ensaiado na história.

Não foi menor a mudança paradigmática produzida pela questão de gênero, particualarmente tratada pelas mulheres. Elas ajudaram a reconhecer a opressão que nós homens temos imposto às mulheres, desde o neo-lítico, formularam propostas de como chegar a relações equilibradas entre homem-mulher e de ver a realidade especialmente religiosa a partir da ótica feminina.

Essas mudanças paradigmáticas estão ainda em curso. Nem todos conseguiram assimilar esses novos paradigmas, superando o patriarcalismo, o machismo e o etnocentrismo. Mas todos têm a chance de se deixar evangelizar e enriquecer sua própria humanidade e produção teológica e espiritual.

Agora a teologia da libertação se confronta com mais uma mudança paradigmática: como situar a reflexão teológica no contexto da nova imagem do mundo, que está surgindo das ciências da terra, da cosmologia contemporânea e da evolução ampliada? Que lugar ocupa o pobre dentro desta reflexão? As dificuldades não são poucas. Uma convicção, entretanto, ganha força em nós: assim como a teologia da libertação cresceu, enriquecendo sua leitura dos pobres e ampliando seu espectro libertador, assim também agora incorporará esse novo paradigma para enriquecimento da experiência espiritual e para alargamento da dignidade dos pobres e de sua libertação.

Neste ensaio procuraremos colocar a questão de forma a facilitar a travessia de um paradigma ao outro.

1.A nova centralidade: o futuro do grande Pobre, a Terra, e a humanidade.
Antes de mais nada importa entrar num novo estado de consciência. Chegamos a um ponto de nossa história em que percebemos a possibilidade da auto-destruição. A capacidade de intervenção na natureza nas últimas décadas foi tão profunda que desiquilibrou todos os ecosistemas e o próprio sistema-Terra. As forças produtivas se transformaram, perigosamente, em forças destrutivas. Todos somos reféns de um modelo de convivência, de um modo de produção e de relações com a natureza que implicam violência sistemática sobre pessoas, classes sociais, países, ecosistemas e a própria Terra. O eixo articulador do projeto de civilização hoje mundializado (cujas origens derradeiras se encontram no surgimento do homo habilis há 2,5 milhões de anos e na intervenção organizada na natureza a partir do neolítico) é a vontade de poder, poder entendido como capacidade de dominação e de imposição por parte do ser humano sobre todos os diferentes dele. O objetivo dessa intervenção é a busca de comodidade e do crescimento ilimitado de bens e serviços sem qualquer outra consideração. Tal projeto se mostra atualmente absolutamente insustentável, pois se for estendido a todos os povos, liquidaria com as reservas de recursos limitados e não renováveis da Terra (energia, água potável, matérias-primas, capa de ozônio). Esse crescimento é também impraticável porque implica destruir a natureza, porquanto se orienta pelo lucro e não pela preservação e pelo respeito dos direitos das gerações futuras (solidariedade generacional). O preço deste projeto é alto: a exclusão social da maioria da humanidade e também a destruição do projeto humano planetário.

Todos sofremos sob esse paradigma que, a ser levado avante nas circunstâncias atuais, pode nos destruir a todos. Por isso somos todos oprimidos e empobrecidos, pois não temos o futuro da humanidade e da Terra garantidos. As forças diretivas da natureza não garantem mais a sobrevivência; o ser humano deve politicamente decidir viver e garantir futuro para si e para sua casa comum.

Terra e humanidade somos como uma nave espacial em pleno vôo. Essa nave tem recursos limitados de combustível, de alimentos e de tempo de transcurso. 1% dos passageiros viaja na primeira classe com super-abundância de meios de vida. 4% na classe econômica com recursos abundantes. Os restantes 95% estão junto às bagagens no frio e na necessidade. Pouco importa a situação social e econômica dos passageiros. Todos correm ameaça de vida pelo esgotamento dos recursos da nave. Todos terão o mesmo destino dramático, ricos, remediados e pobres, caso não houver um acordo de sobrevivência para todos indistintamente. Desta vez não há uma arca de Noé que salve alguns e deixe perecer os demais.

Esse não é um cenário de fantasia alarmista, mas a projeção dos institutos mais sérios que, de forma cotidiana e sistemática, fazem o acompanhamento do estado da Terra.

Esta situação é nova na história política da humanidade. O contrato social do passado, subjacente às sociedades atuais, não incluía a Terra; esta era dada como assegurada, campo de exercício da livre atividade dos cidadãos. Hoje essa pressuposição se evaporou. Temos que garantir a Terra e as condições de reprodução da humanidade. Sem essa garantia nada mais faz sentido. Por isso no atual pacto social planetário a Terra, os ecosistemas, as condições físico-químicas de sustentação do todo ecológico devem entrar impreterivelmente. A Terra e todos os seres possuem, pois, subjetividade, vale dizer, devem ser respeitados e incluidos (biocracia, cosmocracia), pois sem eles o projeto social humano se torna impossível.

Tal constatação funda uma nova radicalidade histórico-social: em que medida cada ser humano, cada saber, cada força social, cultural e religiosa, no nosso caso, cada corrente teológica, ajuda a garantir um futuro de vida para a Terra e a humanidade. A questão não é mais: que futuro terão os pobres, ou o projeto da tecno-ciência, ou o Cristianismo, a teologia da libertação ou o papado? Todos terão futuro na medida em que a Terra e a humandiade terão futuro. Esse deve ser construído solidariamene, caso contrário, podemos conhecer o destino dos dinossauros.

Retomando: a centralidade não está mais no pobre, sócio-econômico, político, cultural, étnico, feminino, como na formulação clássica da teologia da libertação dos anos 70 e 80 mas no grande pobre, a Terra, como está sendo percebido a partir dos anos 90. Na opção original pelos pobres deve entrar, primeiramente, o grande pobre que é a Terra e a humanidade, base que, garantida, possibilita então colocar a questão do futuro dos pobres e dos condenados da Terra.

Precisamos todos ser libertados, seres humanos, homens, mulheres, pobres, negros, indígenas, ricos e Terra, de um paradigma civilizacional, hoje mundializado, que nos pode coletivamente destruir (liberação de). Ou mudamos ou morremos.

O que virá depois, se sobrevivermos? Qual a alternativa a ser construida (libertação para)? Aqui comparece a nova cosmologia e o lugar que o pobre ocupa nela. Por cosmologia entendemos a imagem do mundo que nos fazemos, baseada em inúmeros dados, principalmente vindos das ciências da Terra e da vida; outros são de natureza ético-espiritual; por fim aqueles da percepção comum, produzida pelo espírito de nosso tempo. Das intuições e perspectivas dessa nova cosmologia, se derivam cenários que fundam uma nova esperança e um horizonte de futuro para a Terra e a humanidade. A teologia, como parte da reflexão humana geral, deve mover-se dentro desse horizonte comum, oferecer sua colaboração e pronunciar sua palavra de sentido.

2.Marcos da nova cosmologia: o teatro cósmico
Sem entrar em detalhes, essa é a imagem básica do universo que hoje projetamos. Todos viemos de um grande caos inicial, incomensurável instabilidade e desordem. Esse caos, entretanto, não é caótico. É generativo. Dele provém todas as coisas, porque nele estão contidas todas as virtualidades e possibilidades de futuras realizações. Depois da explosão começa a expansão que se faz, ordenando a desordem originária, através de ordens cada vez mais complexas. É o momento cósmico.

Em seguida, no interior das grandes estrelas vermelhas se formaram, em bilhões de anos de trabalho, todos os elementos físico-químico pesados que entram na composição de todos os corpos do universo, também dos nossos. É o momento químico.

Com a explosão destas estrelas se forma o atual universo. A matéria e os campos energéticos se complexificam mais e mais e daí surge, como imperativo cósmico, a vida como auto-organização da matéria (que nunca é material mas sempre interativa porque representa energia condensada). É o momento biológico.

Da história da vida emerge a vida humana como expressão de uma complexidade avançada da evolução. É o momento antropológico, caracterizado pela consciência reflexa, pela liberdade e auto-criação.

Os humanos, por sua vez, levam mais longe ainda a complexidade, se expandindo por toda a Terra, ocupando todos os espaços, se adaptando e modificando todos os ecosistemas, no solo, no subsolo, no ar e fora da Terra, criando as mais diversas configurações culturais e hoje convergindo, aceleradamente, rumo a uma única grande sociedade mundial (geosociedade) É o momento da globalização que temos o privilégio de compartilhar.

Esse imenso processo revela uma rede de implicações inter-retro-conectadas que importa enfatizar.

- Há um todo dinâmico e orgânico constituindo um sistema aberto. Nada acabou de nascer mas se encontra ainda em gênese. A evolução não se processa linearmente mas por rupturas e saltos a ordens mais complexas e mais altas.

- O todo é uno e dinâmico mas contem uma diversidade inimaginável de seres e de energias.

- Os seres, energias e as ordens são interdependentes. Tudo tem a ver com tudo em todos os pontos, circunstâncias e tempos.

- A interdependência revela a cooperação de todos com todos. Essa é a lei mais fundamental do universo: a sinergia, a solidariedade e a cooperação. Todos e tudo conspira para que cada ser e cada ordem continue a existir e a co-evoluir. A seleção natural pela competição e vitória do mais forte (Darwin) deve ser entendida dentro e não acima desta universal conspiração cooperativa de todos com todos.

- Tal interdependência e cooperação faz com que todos se complementem uns aos outros. Nada é supérfluo ou vem excluido. Todos concorrem para a grandeza e a beleza do todo orgânico e dinâmico. A evolução é sempre co-evolução, nunca somente de um ser ou de uma espécie ou de um eco-sistema, mas da totalidade que evolui.

- Essa mutualidade e reciprocidade de todos com todos garante a sustentabilidade dos sistemas e de seus representantes. Quer dizer: quanto maior for a rede de inter-retro-conexões mais garantida é a sobrevivência no presente e também no futuro.

- O equilíbrio que preside a todo o processo é dinâmico, sempre aberto a novos patamares de realização. Isso se deve ao caráter permanentemente caótico do processo, isto é, sujeito a permanentes flutuações e distanciamentos do equilíbrio que, por sua vez, provocam a busca de um outro ponto de equilíbrio, esse também dinâmico e aberto e assim indefinidamente. A vida surgiu de uma situação longe do equilíbrio e a biodiversidade remete a equilíbrios diferentes, todos eles dinâmcos e interconectados.

- A evolução jamais é só adaptação de todos com todos dentro dos ecosistemas, mas é também troca de informações e aprendizado.

- A matéria e todas as coisas são portadores não apenas de massa e de energia mas também de informação porque estão permanentemente em interação, em processos de troca, assimilação, rejeição, composição e aprendizagem. Todos vêm marcados por esse processo ininterrupto fazendo com que todos os seres tenham história, irreversibilidade, interioridade e subjetividade. O universo, portanto, não é a soma de todos os objetos existentes, mas a rede de relações de todos os sujeitos entre si. Por espírito se entende a capacidade de panrelacionalidade de tudo com tudo. Como esse processo comparece desde o primeiríssmo momento, o espírito tem a mesma ancestralidade do universo. Todos, à sua maneira, são portadores de espírito. O princípio da relacionalidade é sempre o mesmo (a unidade do espírito), variam, no entanto, as formas de sua concretização e de sua manifestação (variedades de portadores entre os quais o ser humano, de forma reflexa e consciente mas não exclusiva).

- O todo revela propósito e sentido. Se o universo quissesse atingir o ponto que hoje atingiu, deveria ter feito exatamente tudo o que fez. Um pequeníssimo desvio na calibragem das energias primordiais teria ocasionado ou a implosão dos sistemas constituidos, ou a dispersão da matéria sem criar ordens densas ou o gerado outro tipo de universo. O propósito do universo não é apenas perpetuar o que existe, mas ocasionar a realização das potencialidades existentes no próprio universo. O real é então real-ização, algo feito e sempre por fazer. A ordem explícita remete a uma Ordem Implícita e o todo postula um conjunto superior inteligente, o que permite a muitos cosmólogos sustentarem a visão de que o universo é auto-consciente.

- Por fim, essa projeção nos obriga pensar a realidade não como uma máquina mas como um organismo vivo, não como blocos estanques, mas como sistemas abertos e em redes de relação. A tendência de cada ser a se auto-afirmar é complementada pela tendência a se integrar num todo maior. Importa, pois, passar das partes para o todo, dos objetos para os sujeitos, das estruturas para os processos, das posições para as relações. Tudo no universo é, pois, con-criativo, co-participativo, ligado e re-ligado a tudo e a todos.

3. O lugar do ser humano no conjunto do seres
Qual é o lugar do ser humano no conjunto dos seres? Antes de mais nada, ele é parte e parcela do universo em evolução e um elo da cadeia da vida. Quando 99,98% da Terra já estavam constituídos, ele irrompeu. A Terra não dependeu dele para elaborar a sua intrincada complexidade e rica biodiversidade. Ele é fruto desse processo e não causa dele. O antropocentrismo convencional que afirma que as coisas todas da Terra e do universo só têm sentido quando ordenadas ao ser humano, está fora de lugar. Seria desconhecer a relativa autonomia de cada coisa (por isso deve ser respeitada) e os laços de conectitividade de todos com todos, fazendo que todos se ordenem a todos.

Entretanto, ele possui uma singularidade: ele pode intervir intencionalmente na natureza. Por um lado ele se encontra dentro da natureza como parte dela; por outro ele está de frente à natureza, como quem pode intervir nela. Ele co-pilota, então, o processo da evolução dentro do qual ele co-evolui. Ele se torna, pois, um ser co-responsável. É a sua dimensão ética. O princípio axial dessa ética da co-responsabilidade pode ser assim formulado: “aja de tal maneira que os efeitos de sua ação sejam benéficos para os seres e para as relações de todos com todos”. Ou pode ser formulado também negativamente: “aja de tal maneira que os efeitos de sua ação não sejam destrutivos dos seres e das relações de todos com todos”. Portanto, o ser humano pode intervir no sentido da própria natureza, potenciando virtualidades presentes, como pode intervir freando, frustrando e destruindo virtualidades. Ele pode ser o anjo bom, o guardião e jardineiro como pode ser o satã e o destruidor da Terra.

Por que essa ambiguidade fundamental? Eis um desafio para toda razão analítica. Na verdade, um mistério, talvez somente esclarecível a partir de uma razão transcendente e, no termo, teológica. De todas as formas, podemos dizer que o mal é originário e comparece como condição da evolução entendida como um sistema aberto. O caos e a desordem são ocasião de surgimento de novas ordens. A seta do tempo aponta sempre para frente e para cima, acena para ordens cada vez mais complexas e superiores tendendo a transformar o caos em cosmos, a desordem em ordem, o dia-bólico em sim-bólico e a entropia em sintropia. Portanto, a superação progressiva do mal.

É no nível humano que pode emergir a tragédia da opressão e da exclusão. O ser humano pode ativar suas potencialidades destruivas ou pode perder o sentido da justa medida provocando vítimas. Por exemplo, há duas tendências básicas em todos os seres vivos: a tendência à auto-afirmação e a tendência à relação com outros, integrando-se num todo maior. Um ser ou um sistema pode potenciar de tal forma a auto-afirmação que ameaça, submete ou elimina os que lhe possam significar alguma limitação. Deixa de relacionar-se e integrar-se com os demais, de quem, na verdade depende para subsistir. O capitalismo, por exemplo, com sua vontade de acumulação privada, significa, nesta visão, uma exacerbação da vontade de auto-afirmação. É o império do eu que não se abre ao nós. Ele possui seus atrativos porque realiza uma dimensão verdadeira do humano, apenas de forma mutilada, sem o seu correlato, a vontade de relação e de solidariedade para com os outros. Outro sistema pode inflacionar a vontade de relação e integração que não deixa espaço para a legítima auto-afirmação. É o reino do nós fechado ao eu. É o vício de um tipo de socialismo estatal que anula as individualidades. A justa medida da auto-afirmação e do relacionamento representa a sanidade e o equilíbrio necessário que confere sustentabilidade ao processo evolucionário e humano. A ruptura desse equilíbrio introduz a vitimação dos seres e do sistema da vida.

4.O pobre e o excluido, vítimas da injustiça ecológica e social
O desiquilíbrio ecológico e social afeta a todos os ecosistemas e os seres que os compõem. Assim o sistema do capital, hoje mundialmente integrado, significou desde o seu surgimento, uma sistemática aplicação de violência: sobre as classes sociais, explorando a força de trabalho, sobre povos e países, colonizando-os e sugando suas riquezas, sobre o sistema-Terra pilhando os recursos naturais. É sempre a mesma lógica em ação, acumulando opulência de um lado à custa da miséria do outro. A relação depredadora para com a natureza – injustiça ecológica – afetando as águas, os solos, os ares, a base físico-química da vida, se transfora numa generalizada degradação da qualidade social de vida – a injustiça social - penalizando principalmente os mais fracos e os pobres. Estes se vêem condenados a morar em locais de risco, a servir-se de águas contaminadas, a respirar ares infectados de poluição e a viver sob relações sociais altamente tensas devido à pobreza e à exploração.

Ao analisarmos os mecanismos do empobrecimento não podemos nos deter apenas na identificação das causalidades econômicas, políticas e culturais. Importa incluir a análise das relações que uma sociedade determinada entretem com a natureza dentro da qual se encontra o ser humano. No nosso caso da relação dominante de cariz capitalista, é vítima de uma dupla injustiça: da injustiça ecológica e da injustiça social, ambas intrelaçadas pela mesma lógica da exploração e da devastação da comunidade de vida.

Hoje não apenas os pobres gritam. Gritam também a terra, as águas, os ares submetidos a formas de utilização depredadora e destrutiva, enfim, grita o inteiro planeta Terra sob uma sistemática máquina de devastação e de morte. A opção pelos pobres – marca registrada da teologia da libertação – deve ser integral: todos os pobres com todos os seus distintos rostos, e o grande pobre que é a Terra como Gaia, Pachamama e Grande Mãe.

A todos importa libertar. Nesse processo de libertação global e integral impõem-se prioridades:
Primeiramente urge libertar a Terra mediante uma verdadeira revolução no paradigma de relacionamento para com ela. Não pode ser mais o paradigma da modernidade, assentado sobre a violência (há que se escravizar a Terra e submetê-a a torturas como o inquisidor fazia ao inquirido, no dizer de Bacon e de Descartes) mas o paradigma holístico, baseado na reverência, no respeito e no cuidado por sua biodiversidade, integridade e beleza. O desenvolvimento não se fará contra a natureza ou à custa da natureza, mas com a natureza e no sentido das indicações hauridas da natureza.

Em segundo lugar importa garantir a continuidade da espécie homo sapiens e demens, preservar as condições de sua reprodução e ulterior desenvolvimento já que ele é um ser interativo e con-criador.

Em terceiro lugar, é urgente enfrentar o empobrecimento injusto das grandes maiorias da humanidade que se encontram debaixo do limite da pobreza, vale dizer, dos excluidos, empobrecidos e marginalizados mediante a implantação de um tipo de sociabilidade que garanta o suficiente e o decente para todos. Aqui se abre o espaço de resgate das tradições da solidariedade, nomeadamente, do socialismo entendido como a realização plena da democracia levada a todos os campos, ao econômico, ao político, ao social, ao cultural, ao familiar e ao cotidiano das relações de gênero.

Em quarto lugar faz-se mister salvar espécies em extinção seja de animais, vegetais e micro-organismos pois seu desparecimento empobrece a biodiversidade, afeta a inegridade da natureza e reduz recursos talvez necessários para a cura da vida ou para a sustentabilidade das sociedades humanas e de seu ulterior desenvolvimento.

Em quinto lugar cabe garantir a qualidade de vida de toda a comunidade de vida (seres humanos e outros organismos vivos que constituem a comunidade biótica) no sentido de garantir o patrimônio natural e cultural comum para as gerações presentes e para as gerações futuras.

5. Conclusão: nova urgência da teologia da libertação
Das reflexões levadas a efeito até aqui, se deriva claramente que a questão do pobre não é eliminada em nome da generalidade do problema da Terra e da humanidade, mas vem resituada no seu interior a partir donde se vê a imbricação com todas as demais questões. Para encontrar uma alternativa ao sistema imperante criador de empobrecimento dos seres humanos e da Terra, por isso, homicida, biocida, ecocida e eventualmente geocida, devemos nos inspirar na visão da cosmologia contemporânea. Ela é holística, confere centralidade à cooperação e à solidariedade, como a lei básica de todas as coisas e do inteiro universo, reforça os relacionamentos inclusivos por causa da interdependência de todos com todos, respeita a relativa autonomia de todos e de cada um dos seres face aos quais cabe reverência e acolhida, incorpora a espiritualidade porque todos os seres e o universo são portadores de informação, subjetividade e propósito. Desta vez não há protelações: ou mudamos na direção que a natureza nos aponta e assim nos salvamos ou vamos ao encontro do pior, a dizimações como jamais vistas na história da humanidade.

O fato brutal da pobreza como empobrecimento seja da Terra como um todo, seja dos principais ecosistemas, seja das grandes maiorias da humanidade, representa o ponto detonador de uma nova reflexão paradigmática e o provocador de práticas salvacionistas.

Faço minhas as palavras inspiradas da Carta da Terra, aquele documento que se destina a gerar um novo estado de consciência na humanidade face aos riscos e as chances da crise mundial: “Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, por um compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, pela pronta luta pela justiça, pela paz e pela alegre celebração da vida”


Algumas indicações bibliográficas mínimas para quem quiser aprofundar a questão da nova cosmologia:

Boff, L., Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Atica, S.Paulo 1995.
Berry, Th., O sonho da Terra, Vozes, Petrópolis 1991.
Capra, F., O ponto de mutação, Cultrix, S.Paulo 1989.
Duve, Ch., Poeira Vital. A vida como imperativo cósmico, Campus, S.Paulo 1997.
Davies, P., Deus e a nova física, Edições 70, Lisboa 1998.
Frei Betto, A obra do artista. Uma visão holística do universo, Atica, S.Paulo 1995.
Hawing, S., Uma breve história do tempo, Nova Fronteira, Rio de Janeiro 1992.
Lazlo, E., Conexão cósmica. Guia pessoal para a emergente visão da ciência, Vozes, Petrópolis 1999.
Lewin, R., Complexidade. A vida no limite do caos, Rocco,Rio de Janeiro 1994.
Lovelock, J., Gaia. Um novo olhar sobre a vida na Terra, Edições 70, Lisboa l989.
Maturana, H. e Varela, F., A árvore da vida. A base biiológica do entendimento humano, Editorial Psy II, Campinas 1995.
Mülller, R., O nascimento de uma civilização global, Aquariana, S.Paulo 1993.
Sagan, C., Pálido ponto azul, Companhia das Letras, S.Paulo 1996.
Weil, P., A consciência cósmica, Vozes, Petrópolis 1989.
Zahar, D., O ser quântico. Uma visão revolucionária da natureza humana e da consciência baseada na nova física, Best Seller, S.Paulo 1991.