Futebol como grande metáfora Há um sentido evidente e auto-explicativo do fenômeno da copa mundial de futebol com as multidões que mobilizou e com o rico mundo simbólico que produziu. Quem assistiu à recepção que Roma fez à Azurra, time vencedor, reunindo cerca de um milhão de pessoas no Circo Massimo, brandindo furiosamente a bandeira italiana, não deixa de se perguntar se através destas manifestações não se revelam sentidos ausentes ou recalcados que valeria a pena tentar trazê-los à tona. É o momento filosofante de toda análise da realidade. O que revela toda esta euforia futebolística, praticamente em grande parte do mundo? Tentemos ir além do senso comum. Em primeiro lugar, diria o que já escrevi na semana passada: trata-se de uma manifestação da noosfera, quer dizer, da nova fase planetária da humanidade, na qual mais e mais mentes e corações interagem e criam incontáveis inter-retro-conexões que modificam o estado da consciência coletiva. Por um momento, a Itália, os italianos e os jogadores formaram uma única e complexa realidade. Em segundo lugar, temos a ver com uma espécie de vingança da exuberância da vida contra a monotonia e extremo reducionismo que a cultura dominante globalizada está impondo a todos. Para ela o que conta mesmo é a produção e o consumo. Não admite outra mudança que não seja mais produção e mais consumo. E aqui, nestas manifestações, mostra-se que a vida pode ser outra coisa, que festejar juntos e celebrar sonhos não podem ser anulados pela voracidade consumista. Em terceiro lugar, estas celebrações resgatam o horizonte utópico que foi sensivelmente rebaixado nos últimos anos. A queda do império soviético e a globalização econômico-financeira não realizaram as promessas que suscitaram. Ao contrário: não só não se resolveram os problemas deixados pelo socialismo real senão que se agravaram a próprias contradições. Especialmente depois de 11 de setembro de 2001 vive-se sob o medo do terror. Sumiram as expectativas boas e, o que é pior, a esperança. A impressão que a maioria tem é que no mundo todo, tudo piorando: o mercado de trabalho, o cuidado pela natureza, o modelo de desenvolvimento cada vez mais insustentável, a destruição da biodiversidade e o crescente aquecimento do planeta. Agora com o futebol celebra-se o inesperado sempre ansiado e se mostra que é possível outro tipo de mundo menos ameaçado. Em quarto lugar, cada povo precisa de um espelho no qual possa se ver e se apreciar a si mesmo. Numa sociedade desencatada como a nossa que destruiu os heróis e mediocrizou as figuras de referência, o time vencedor assume esta função: devolve ao povo o sentimento de pertença e de auto-estima. Ele mostrou ser possível produzir uma saga heróica e que o pais pode ser o primeiro, pelo menos nesse espaço da realidade. A vida não é só dura e, não raro, trágica. Ela pode ser alegre e, por um momento, épica. A desclassificação do Brasil foi fatal. Em poucas coisas podemos mostrar ao mundo o que valemos. No carnaval e no futebol somos os primeiros. Com a derrota parece confirmar-se que somos um pais retardatário no qual quase nada dá certo. Nossos jogadores deixaram essa dívida ao povo brasileiro. Por fim, o futebol representa a grande metáfora, presente em todas as culturas e mitologias: o futuro da humanidade é uma festa sem fim e um congrassamento sem barreiras. É a festa de Deus, o teatro imenso de sua glória no qual todos indistintamente são convidados a participar. |