| PT, religião e ética Entre as muitas forças que se conjugaram para fundar o PT está sem dúvida a Igreja da libertação. Por Igreja da Libertação entende-se aquela porção das Igrejas (católica e outras Igrejas evangélicas)que compreendeu que não se pode pregar o evangelho sem articulá-lo com justiça social. Caso contrário a religião vira alienação. Por isso a Igreja da libertação consubstanciou sua identidade na clara opção pelos pobres, contra a pobreza e a favor da libertação. Essa porção, significativa mas não majoritária, ensejou as cem mil comunidades eclesiais de base, centenas de milhares de círculos bíblicos, dezenas de centros de defesa dos direitos humanos e animou a assim chamada pastoral social, criada pela CNBB (pastoral da terra, dos índios, dos negros, da saúde, da criança) atingindo milhões de pessoas. Os integrantes deste tipo de Igreja em redes de comunidades, se entendem como parte do movimento social maior com o qual estão sempre articulados. Por isso, não cairam na tentação de elaborar um projeto próprio mas assumiram o projeto do movimento social popular. Este é notório: refundar o Brasil de baixo para cima e de dentro para fora, assentado na soberania, na cidadania, na democracia participativa, com um tipo de desenvovimento social que traga justiça, diminuição das desiguladades, que realize a segunda abolição da pobreza e da miséria (C. Buarque) que respeite a ecologia, enfim, criar uma sociedade na qual todos possam caber, a natureza incluida. A utopia da fé mostra profunda conaturalidade com o projeto do movimento social e com o projeto do PT. Em outras palavras, o evangelho não é só bom para nos prometer a vida eterna mas é bom também para nos ajudar a construir a vida terrenal mais justa, fraterna e espiritual. Esses cristãos novos não entraram no PT. Ajudaram a fundá-lo porque viram nele um instrumento, embora não único, de realizar o projeto popular e de acercar-se mais ao sonho cristão. O PT era o espaço no qual os ausentes da história se faziam presentes, os injustamente emudecidos começavam a falar e a discutir que Brasil queremos depois de 500 anos. Eles deram duas contribuições notáveis ao PT: a mística e a ética. A mística, no sentido de visões poderosas que animam a manter-se na luta apesar das dificuldades e fracassos e a ética como a atitude básica de transparência e correção, colocando sempre o bem comum acima do bem particular e jamais praticar a corrupção tão tradicional. Estas duas contribuições são fundamentais nesse momento critico em que o PT face à corrupção de vários de seus dirigentes pensam em refundar o partido. Os "igrejeiros" que muitos colocavam, soberbamente, à margem, constituem hoje uma fonte de onde o PT renovado poderá e deverá beber. A religião, quando vivida em sua forma espiritual, tem esse condão: de reforçar a sanidade da política e combater toda corrupção. Vejo-o claro, na figura do Senador Delcídio Amaral que preside a CPMI da corrupção. É um homem de oração. Esta implica um diálogo com o eu profundo cujo efeito é a irradiação da serenidade e de infinita paciência. Quando no programa Roda Vida confessou que "Deus nunca o havia abandonado" se comoveu. E com razão, pois crer em Deus não é pensar Deus, como disse Pascal, é sentir Deus a partir de todo o ser. Com um homem assim podemos estar seguros da lisura de seu trabalho e que a corrupção será devidamente desmascarada.
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