| Lula e Bush:duas visões Quem acompanhou ao vivo os discursos do Presidente Lula e o do Presidente Bush, um seguido do outro, não podia se furtar a uma comparação. Eram dois universos diferentes e contraditórios. Duas leituras da história presente da humanidade, na sua fase planetária. Um simbolizando a criação e a esperança e o outro, a segurança e o medo. Lula representa a concepção de uma ordem mundial aberta, caracterizada pela “confiança na capacidade humana de evoluir para formas superiores de convivência” e que acolhe o “desafio maior e mais belo o de humanizar-se”. Essa utopia possível se constrói por todos, mediante o diálogo permanente, a solidariedade a partir de baixo e a ética da com-paixão com os milhões e milhões de vítimas que padecem com a miséria e a fome. Lula pregou a única revolução possível em tempos de globalização, aquela ancorada, não em ideologias ou nas políticas convencionais mas numa coalizão de forças éticas e morais, coalizão que se funda na sensibilidade humanitária e na inteligência emocional, quer dizer, naquelas dimensões que mobilizam as pessoas e as leva a mudanças efetivas. Em razão desta nova forma de fazer política, sugeriu a reestruturação da ONU para conferir-lhe plena autoridade a fim de desnovelar conflitos e instaurar políticas de paz. Propôs a criação de um Comité Mundial de Combate à Fome porque “o verdadeiro caminho da paz é o combate, sem treguas, à fome” “na única guerra da qual sairemos todos vencedores”.E na medida que se equacionarem os problemas sociais globais, se invalidam as razões que sustentam o terrorismo mundial. Constitui equívoco palmar, combater o terrorismo político com o terrorismo de Estado. Só a justiça social mundial é resposta adequada ao terrorismo. Bush fez-se porta-voz de um sistema fechado sobre si mesmo, ameaçado pelo terrorismo e por isso, dominado pelo medo. Partiu de cenários, próprios da lógica fundamentalista, ao estabelecer a polarização entre ordem ou caos, civilização ou barbárie. Para ele não há alternativa possível. Os Estado Unidos, representando a ordem e a civilização, declararam (unilateralmente) guerra ilimitada ao terrorismo e aos que o apoiavam como o Afganistão dos talibãs e o Iraque de Saddam Hissein. Suas invectivas, porém, perdem credibilidade quando sabemos que foram os Estados Unidos que treinaram a Bin Laden no terrorismo (contra os russos) e que cederam a Saddam Hussein as armas de destruição em massa. A denúncia do crime organizado mundial e dos abusos sexuais de crianças, por abomináveis que sejam, não superou a atitude moralista, pois, apenas se ateve aos castigos a serem impostos, sem identificar as causas a combater. Estas se encontram na cultura dominante, hegemonizada pelos Estados Unidos, que, no afã de induzir ao consumo, mercantiliza tudo, do sexo ao Espírito Santo, exaspera todos os intintos e erotiza todos os produtos. Com esse caldo, como se admirar dos crimes? Em seu discurso não houve lugar para o multilateralismo, o diálogo e a cooperação, a não ser aquela que consolida ou refaz a ordem vigente. Quem inspira mais um futuro benfazejo para a humanidade? Bush ou Lula? A história tem mostrado que o futuro está do lado do sonho, não de qualquer sonho, mas daquele que se traduz em história, como no caso de Lula. |