Comer Não é Direito de Todos

Há dois valores que o socialismo, apesar de suas contradições, tinha vivos: o internacionalismo e o sentido da solidariedade mundial a partir dos oprimidos. Essa herança desapareceu quase totalmente após a implosão do ensaio socialista. O que veio após foi uma revolução, vale dizer, uma involução: o triunfo de uma cultura materialista, competitiva e mercantilista. Mercantiliza-se tudo: água, saúde, educação, arte, sexo e religião. Setores desta, então, entraram pesadamente no mercado, disputando entre si quem mais atrai gente, se as sessões de exorcismo e cura, se a hilária aeróbica de Deus.

Se tudo é negócio, então, tudo vira oportunidade de ganho. A coisa é simples: os ricos são ricos, porque aproveitaram as oportunidades, e os pobres são pobres, porque se mostraram incapazes de se aproveitarem delas. A função do Estado se concentra em criar oportunidades para todos e de manter o acesso ao mercado livre e competitivo. A partir daí, cada qual lute e construa seu caminho.

Onde reside a falácia desta visão? Na admissão de que não existem mais direitos humanos universais e incondicionais, pouco importa o dinheiro que tenho no bolso. O que existe, dizem, não são direitos, mas necessidades vitais. E cada um por si mesmo deve buscar atendê-las. Não existe mais o direito para todos de comer, vale dizer, de viver, nem o direito ao acesso à água potável e ao ar respirável. Tudo é acessível, contando que se pague.

Comida, água e ar não são mais bens comuns mundiais, cuja gestão cabe à responsabilidade pública coletiva. Agora são bens econômicos, cuja gestão, para ser mais eficaz, dizem, caberá ao setor privado. Em 1974,os G 7, ao projetarem a Nova Ordem Econômica Mundial, propunham como resposta à crise do petróleo, erradicar até o ano 2000, totalmente a pobreza e garantir o acesso à água potável a todos. Em 2002, ao constatarem que a situação mundial se agravou, os mesmos decidiram em Joanesburgo em apenas diminui-la pela metade até o ano 2015. Em outras palavras, o direito de comer, de beber e de respirar, enfim, de viver, não está garantido para todos.

Reconhece-se assim que a desigualdade entre ricos e pobres é insuperável. Como o repete nosso humanista maior, o ministro Cristovam Buarque: "Podemos ser não só desiguais, mas dissemelhantes, pois não nos sentimos mais do mesmo gênero humano; só erradicamos a pobreza se nos sentirmos semelhantes, caso contrário, bifurcamos a humanidade". O combate à fome humana que inclui a fome de beleza (cidadania) é critério inconfundível de vigência ou não de humanidade e de com-paixão entre os humanos.

Agora temos condições de apreciar o caráter revolucionário e anti-sistêmico do projeto Fome Zero do governo Lula. Ele crê que outro Mundo e outro Brasil são possíveis, desde que tenhamos com-paixão e amor incondicional ao outro. Foi o sentido ético-poilítico de sua fala em Davos. É admirável que não sejamos dirigidos por um mercador que só vê mercadoria nas coisas e, nas pessoas, recursos humanos. Mas por um político que tem coração, que não se envergonha de chorar e que entende o poder como oportunidade, a verdadeira oportunidade, de fazer a revolução da ternura: garantir que todos possam comer ao menos três vezes ao dia.