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A idade humana da globalização A globalização tiranossáurica, não obstante suas contradições internas, cria as condições infra-estruturais e materias para as outras formas de globalização: projetou as grandes avenidas de comunicação global, construiu a rede de trocas comerciais e financeiras, incentivou o intercâmbio entre todos os povos, continentes e nações. Sem essas pre-condições seria impossivel sonhar com globalizações de outra ordem. Agora, estabelecida a globalização material, a globalização humana deve resgatar seus ganhos num quadro maior e mais includente e buscar a hegemonia. Ela se processa, simultaneamente, em várias frentes, na antropológica, na política, na ética e na espiritual. Vejamos. Impõe-se mais e mais na consciência coletiva a unidade da espécie humana, sapiens e demens. Por maiores que sejam as diferenças culturais, vigora uma unidade genética básica, temos a mesma constituição anatômica, os mesmos mecanismos psicológicos, os mesmos impulsos espirituais, os mesmos desejos arquetípicos. Embora mudem os códigos de expressão, todos são portadores de cuidado, de emoção, de inteligência, de liberdade, de amorosidade, de expressão artística e de experiência espiritual. Simultaneamente se manifesta também nossa capacidade de mesquinharia, de exclusão do outro, de violência contra a natureza e de destruição. Somos a unidade complexa desses contrários. Mais e mais se difunde a convicção de que cada pessoa é sagrada e sujeito de dignidade. Ela é um fim em si mesmo, um projeto infinito, a face visível do Mistério do mundo, um filho e filha de Deus. Em nome desta dignidade se codificaram os direitos humanos fundamentais, pessoais, sociais e dos povos. Por fim, se elaborou a dignitas Terrae, traduzida nos direitos da Terra como super-organismo vivo, dos ecosistemas, dos animais e de tudo o que existe e vive. A democracia como valor universal a ser vivido em todas as instâncias humanas penetra lentamente nas visões políticas mundiais. Vale dizer, cada ser humano tem direito de participar do mundo social que ajuda a criar com sua presença e trabalho. O poder deve ser controlado para não se transformar em tirânico. A violência não é o caminho para soluções duradouras, mas o é o diálogo, a tolerância e a busca permanente de convergências na diversidade. A paz é simultaneamente método e meta, como fruto da justiça societária irrenunciável e do cuidado de todos por todos. As instituições devem ser minimamente justas e equitativas. Um consenso mínimo para uma ética global se concentra na humanitas da qual todos e cada um são portadores. Mais que um conceito, a humanitas é um sentimento profundo de que somos, finalmente, irmãos e irmãs, viemos de uma mesma origem, possuimos a mesma natureza físico-química-bio-sócio-cultural-espiritual e participamos de um mesmo destino. Devemos tratar a todos humanamente segundo a lei áurea: não faças ao outro o que não queres que te façam a ti. A reverência face à vida, o respeito inviolável aos inocentes, a preservação da integridade física e psíquica das pessoas e de todo o criado, o reconhecimento do direito do outro de existir, constituem pilastras básicas sobre as quais se constroem a sociabilidade humana, os valores e o sentido de nossa curta passagem por esse Planeta. Experiências espirituais dos povos originários e das culturas contemporâneas se encontram e intercambiam visões. Por elas o ser humano se re-liga à Fonte originária de todo o ser, identifica um laço misterioso que perpassa todo o universo e re-unifica todas as coisas inter-retro-conectadas num todo dinâmico e aberto para cima e para frente. São essas experiências espirituais que estruturam nossa subjetividade e nos abrem para horizontes que transcendem o universo. Só nessa dimensão de extrapolação e de superação de toda medida, de todo espaço/tempo e de todo o desejo é que o ser humano se sente realmente humano. Essa lição já nos ensinaram os gregos. A era humana da globalização não ganhou ainda a hegemonia. Mas seus ingredientes são identificáveis e estão fermentando a massa da história e as consciências. Ela vai irromper, gloriosa, um dia. Inaugurará a nova história da família humana que caminhou por tanto tempo em busca de suas origens comuns e de sua Casa materna.
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