O terceiro turno

Tudo aponta para a vitória eleitoral do projeto-Brasil-diferente. Mas essa vitória não garante que nasça, de fato, um Brasil diferente. Depende da hegemonia que as forças vitoriosas puderem garantir. Depende também da capacidade de encontrar uma saída para a crise econômico-financeira que ameaça transformar o Brasil numa nova Argentina. A despeito da retórica oficialista, encobridora do fato, o desafio a ser enfrentado é o dilúvio que o atual presidente deixará para seu sucessor, pouco importa qual seja: a impossibilidade de pagar a dívida interna e externa que cresce dia a dia com os juros altos, dívida responsável, em grande parte, pela dramática exclusão social e por nosso atrelamento aos interesses do projeto-mundo. Acresce ainda a pífia taxa de crescimento anual, incapaz de atender às demandas do mercado de trabalho. E não há de se subestimar o poder das elites derrotadas. Farão de tudo para abortar o projeto-Brasil-diferente, pois não sabem viver fora do poder e de seus benesses. Podem perder sem serem vencidas. Daí que haverá, impreterivelmente, um terceiro turno. Só ele consolidará a vitória que garante a governabilidade e embasará outro horizonte de esperança.

Os promotores do projeto-Brasil-diferente para ganharem este terceiro turno, deverão necessariamente, costurar uma articulação das forças mudancistas que desarme as estratégias dos continuistas, consiga até aliados dentre eles, para assegurar a governabilidade e impôr a re-invenção de um Brasil sobre outras bases. Essas bases significam fundamentalmente uma re-definição das prioridades. Centralidade deverá ganhar o social: produção massiva de alimentos, vasto investimento em saúde, erradicação em pouco tempo do analfabetismo e implantação da educação nos moldes já ensaiados com sucesso em vários governos petistas, apôio expressivo às empresas micro, pequena e média, já que elas garantem hoje 60% dos empregos e asseguram grande parte do que consumimos, incentivo a formas alternativas de energia a partir de nossa riqueza natural e, por fim, suporte a uma tecno-ciência adequada à variedade de nossos ecosistemas. O resultado final desta estratégia será a diminuição significativa da violência social e a certeza de que o Brasil pode dar certo. É a revolução brasileira possível, sempre frustrada pelas elites que cinicamente repetem: façamos nós a revolução antes que o povo a faça. E sabemos que tipo de revolução elas fizeram e que são capazes de ainda fazer.

Para essa revolução, os novos atores precisam de eminente sabedoria política, urdida de determinação e de prudência. Determinação, no estabelecimento de metas claras. Prudência, na sua implementação, somando energias com outros, mas sob sua hegemonia, firme e forte. Pois, desta vez não é permitido errar, a preço de se ver jogada, no ralo da desesperança, a energia acumulada em tantos anos. O processo seria retardado por gerações. Nossos filhos e netos não merecem herdar esta frustração. Ou então não seria preferível continuar a acumulação até que o tempo da revolução amadureça como o irreprimível advento da primavera? Para o sucesso, segundo Maquiavel, se precisa da virtù, vale dizer, da sorte ou da estrela benfazeja. E esta, pelo visto, já irrompeu no céu político de nossa pátria.